segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Despedidas




Tenho pavor. Fujo da tristeza. Arranjo Sempre uma maneira para não me despedir. "Não saberei nunca dizer adeus" como Mia Couto escreveu no Poema da despedida, não tenho jeito.

- Ainda fui à estação mas só vi as costas do comboio! Mas também não te vou dizer isto, pois já me despedi sem dizer adeus, prefiro pensar em ti ainda lá em casa, quando chego e tu do outro lado à minha espera. Prefiro assim, quando vejo que não estás, penso que foste dar um passeio, mas voltas já, prefiro, deixa ser assim…

Sempre que nos despedimos viramos uma página que de longe parece tão bem escrita, não quero ver a casa vazia, que tantos e tantos bons momentos passei lá dentro, prefiro pensar que ainda está habitada com todos os móveis, a cama ainda no sítio e não na casa tal como uma ossada vazia, sem calor, não, não quero ver o sítio onde fui feliz, ninguém é feliz voltando onde o foi uma vez, por isso não acredito em segundas hipóteses, é apenas uma continuação de tudo, mas apenas com um perdão pelo meio. No dia da despedida prefiro passar para o dia seguinte e assim a dor vai passando, já foi ontem, friamente me coloco para não sentir a despedida, prefiro o eterno, prefiro pensar que ainda não fui a casa, que me esqueci das chaves.

- Ainda fui à estação mas só vi…

Não, não vi a tua mala feita, nem dei pelos teus sapatos não estarem espalhados por aí que em tanto esbarrava, não, não dei pela falta dos teus perfumes alinhados, não dei pela falta do teu livro na mesinha de cabeceira, não dei pela falta daquele bocado fresco que me roubavas no lençol, mas que tanto calor me trazia. Nunca reparei em nada disto. Também não decorei a data da tua partida, pois era a data da...
Prefiro pensar que ainda lá estás, vou demorar é a encontrar-te, não sei bem quando.

- as costas do comboio!

Agora a casa continua a sua vida com outros personagens, outras vidas, ouvir outras conversas , bati a porta e ainda disse baixinho

- Até já. Prefiro assim...

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Domingo no mundo




Dias assim, onde o acordar é lento a estender-se pela tarde. Tu com uma camisa minha que mostrava as tuas pernas, atiraste-te para o sofá agitando os longos cabelos.
Seguravas um iogurte que com o riso te caiu no colo, não precisei de colher.

As horas a passar e tudo a parecer tão lento, tão harmonioso, encostares o teu corpo no meu e o genérico do filme a que não estávamos atentos, apenas sentir a presença um do outro, o afago quente interior.
Nós no sofá sem ligação ao mundo, a minha camisa ficava-te tão bem. Para lá da vidraça corre o tempo, mas a nós não nos interessa, apenas o nosso sofá, onde o tempo não acaba e se prolonga nas nossas mãos. 

Retive a imagem comigo até hoje do teu salto descobrindo a camisa e mostrando-te um pouco mais, em bicos de pés, com a bebida tão quente como o nosso corpo.

Depois o teu corpo quente encostado ao meu, a vidraça a embaciar, a camisa perdida no chão, o mundo lá fora e nós perdidos no mundo.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Apressada e não sozinha



Tenho de ir para o ginásio que as carnes estão a ficar flácidas, ainda se o jeitoso do 3º dto. me desse uma piscadela de olhos.

Ainda no outro dia subia com uma amiga e ele a galar a rapariga, mas para mim nada. Eu sempre com desculpas para me encostar a ele com as compras do supermercado, com a comida do gato, que é o único que me espera. O elevador fundo e eu encostada a ele a um canto, a sentir a sua respiração.

Ele no outro dia a subir com uma garrafa de vinho na mão e eu à coca a ver se alguma lhe ia cair na rede que muitas já as ouvi, eu a querer dormir cedo e as molas da cama a rugir feito leões.

Deve ter um bom emprego, sempre bem vestido, já tentei saber, mas nada. O gato a olhar para mim quando entro em casa sobranceiro a dizer

- Outra vez a chegar a casa sozinha e a abanar os bigodes.

Farta de ir jantar todas acompanhadas e eu sempre sem ninguém, a dizer que o que me interessa é a minha vida livre, o tanas! Elas a abanar as pestanas por eu chegar sozinha a dizer que não tenho tempo para relações. 

Elas a  comprar lingerie exibidas e eu para quê? Só se for para mostrar ao meu gato que é o único que me espera, que nenhum me cai na rede. Ainda me vou vestir toda sexy e passar toda a noite para cima e para baixo no elevador para ver se é desta que passo a ir ao cinema, jantar fora a um restaurante romântico, passear sem ter que inventar um ar atarefado para mostrar que estou apressada e não sozinha. Acompanhada já posso passar férias e mostrar que afinal não é pelo mau feitio que estou sozinha. Deixar de pedir meia dose, nos retratos dos casamentos só aparecer eu e os noivos, ter alguém que me monte as prateleiras. Aquela do "mais vale só..." já está gasta.

Um dia ainda convido o jeitoso do vizinho de cima a provar a lasanha que faço tão bem, compro um vinho que já vi que ele gosta, ponho velas por toda a casa e 

- Outra vez a chegar a casa sozinha e a abanar os bigodes.

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

A dor do membro fantasma




"A dor do membro fantasma é uma das mais terríveis e fascinantes de todas as síndromes clínicas dolorosas, os pacientes queixam-se amargamente, vários meses, após a amputação, de ainda sentirem uma dor excessivamente forte no membro já amputado."


Não, não estou a dizer que és um membro meu, membro de quê? Apêndice? Nunca foste meu, muito menos ligado a mim algum dia estiveste.
As tuas desculpas sempre que falo na tua mulher

- Não posso, as crianças, já sabes como são!

Não, não sei, nunca tive crianças e as tuas só as vi de fotografias, que nem perto do parque posso estar, eu a achar que um dia poderia tratá-las como minhas.

- Calma, para o ano falamos nisso!

Não, não posso ter dor por não te ter, pois acho que te perdi um mês após o nosso encontro no hotel Mar.
Eu feita parva a arranjar a casa sempre que cá vens, a pensar que também um dia podias cá ficar, para sempre, não apenas para te servir de refúgio para não ouvires as queixas da tua mulher em casa.

- Isto é o abrigo do mundo!

Eu feita parva a cair nas tuas cantigas que é meu fado. Não, não estou a dizer que és um membro meu, membro de quê? Sempre foste um fantasma, para que saibas és mais um dente do siso que extraí, vou passar a língua e nunca mais te vou sentir, nem sentir saudades dos nossos serões, nem dos passeios no Gerês, nem dos filmes que víamos encostados, nem…

Nada irei sentir, mesmo quando não me atenderes as chamadas, afinal nunca foste meu.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

A sombra (letra sem refrão)




Quando a terra secar
os ventos  entrarem no meu corpo
o diamante rasgar as nuvens negras
as tempestades se diluírem em aguarelas

nesse dia, o sol adormecerá no outro lado
aquecendo meu corpo
secando tempos de ignomínia
despertando a liberdade dos meus sentidos

Quando os rios voltarem a fluir azul celestial
as marés baixarem de temperatura
a casa voltar a ser habitada 
Deixaremos de lado as palavras de cristal

nesse dia, o sol adormecerá a meu lado
aquecendo o meu corpo
os meus sentidos estarão livres
e deixaremos a sombra desprender-se do corpo.

Também tem o seu caminho.
Eu tenho o meu.

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Lady Brett Ashley (Fiesta)




Sem compromisso, nenhum, sem responsabilidades, viver a vida com os pés levantados, não mostrar o interior negro e vazio para lá da concha.

- Porque não me dizes amo-te?

A minha cabeça de costas voltadas, sem te responder, a pensar nisto, naquilo, a identidade é apenas exterior, rodeada de gente bonita, sem ligações ao mundo profundo, sem palco não há vida.

- Tu? Esparramado no sofá! Vais onde?

Os homens encantam-se com meus gestos perdidos, são atraídos à minha ilha, por lá ficam e me defendem, degladiam-se. Ser a única personagem de um livro, onde a geração perdida ocupa esplanadas de café, viajar de Paris  a Pamplona, sim, sei que não posso fugir de mim saltando de país para país,  podemos então, passear entre o romântico e o libertino sem sair daqui, talvez amargamente, tal como talvez na manha seguinte nem me lembre dos prazeres passados.

- porque já não dizes amo-te?

As minhas costas não te respondem, as tuas facturas datadas, o teu credito nulo, as palavras murchas, até já nem te percebo. Não posso ir a lado nenhum sozinha, mas também não me posso comprometer contigo, atrás de uma mesa com solas gastas e colarinho comprometido.
A tua desculpa  é o teu crédito negativo. Esse, que me deixa ficar mal.


Tal como The Sun Also Rises, também tu, talvez, te possas levantar.

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Hora,




Tinha dias em que pensava, no "porque não", agora é porque sim.
Antes só pensava na chegada, mas para isso é preciso partir.
Está na hora de partir para novas paragens novos amores, novos calores, provar outros sabores que o mundo tem para me oferecer.

- Agora sim.

Deixo pelas costas a vida que conheci, calores arrefecidos, eu, com as palavras que conheço de cotovelo roto e as paisagens tão familiares que já são os retratos que por eles passo e já nem ligo. Vou fazer novos retratos da vida, novas ilustrações mais coloridas, deixar os retratos na estante que já nem na moldura reparo, nem na sua cor esbatida que por eles o sol passa e deixa marca, gasta. Vou arranjar novos caminhos, novas personagens para lá colocar, ser também outra personagem  com vidas que contenho.

Distanciar-me dele, que me olha de avesso por todos os males que lhe acontecem, sempre com desculpas por tudo. Deixar a frieza do seu toque, onde o calor se extinguiu por passos mal dados, procurar um novo amor que me faça sentir estar num novo caminho, numa nova aventura, que afinal, vale a pena.

O retrato dele fica onde está, ao lado de outros também já gastos, eu é que vou em busca de novos ventos, sem nada que me ligue ao passado, em busca de novos futuros. A vida por vezes aparece assim, tudo em aberto.

- Porquê? Perguntava ele de olhos caídos.

Um caminho livre para percorrer, agora é porque sim, porque existem coisas que só por sí  já se justificam.

- Porque sim.

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Esta vida não está fácil,




É lixado, mas sou verdadeiro

- Amas-me?

- Queres que minta? Não vamos complicar a coisa!

Esta vida não está fácil para pessoas honestas.

- O meu marido não olha para mim, se calhar já não sou jeitosa?

- Ora deixa cá ver, claro que preciso de experimentar o artigo uns dias e depois vem a verdade,

- Sim realmente podias trabalhar mais os glúteos, estão a ficar descaídos! E troco de artigo, que de danificados já tenho a aparelhagem da sala que não funciona. Depois elas intoxicadas com livros de auto-ajuda. Querem relações, falar de pais e filhos, juntar trapos e o porquê de os rasgar.

Mas agora até isso está difícil, com a idade, as ressacas mais difíceis, as convivências mais sofríveis, a cerveja e o café mais caros, engolir as merdas que nos dizem é cada vez mais complicado de passar na goela.

Não, isto não está fácil, ainda por cima não amealhei o suficiente para o descapotável, para as Imperiais em Cascais, para o bronze no Algarve.

- Ficamos juntos para sempre?

As relações mais destruídas, o escape mais fácil, as desculpas mais esfarrapadas e com menos teor.

- Queres que minta! Não, não vamos complicar a coisa!

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Salvo-te





Faltavam 5 dias para partir,

- Pena só nos encontrarmos agora, 
- Acredito no amor e o nosso esgotou, dizias tu referindo-te a ele, 
- O convite fica aqui, podemos jantar?
- Sim, em minha casa.

Senti o teu perfume ainda pela porta que nos separava, o teu sorriso quando me recebeste.
Recordo bem o teu anel a tocar no copo de vinho, 

- Lá do teu "Terroir", especialmente para tí.

- Pena só nos encontrarmos agora, 

Recordo-me  bem da tua casa, com livros e a máquina fotográfica pousada a um canto que retratavas tudo a teu jeito. Da música que fazia, dos teus desenhos espalhados, dos teus pés descalços.

- Tu  mereces que o amor nunca se esgote, dizias, colocando-me lá no alto.

Nunca esquecerei o teu perfume, o tom da tua pele, a sua textura suave e deslizante.

- Um dia que o teu amor se esgotar, eu salvo-te, dizias tu com a luz da chama a iluminar-te parte do rosto,

- Não precisas de mais nada, apenas de continuares a seres Tu,

A garrafa vazia, a sobremesa a derreter, a temperatura a subir, o teu vestido preto.

Eu lá no alto.

- A convivencia mata o encanto, atirei.

- Acredito na essência, dizia ela com erudição e o seu dedo longo e delicado acariciava o copo.

A mala estava pronta e tanto para levar comigo que não cabia em nenhum espaço deste mundo.

- Um dia que o teu amor se esgotar, eu salvo-te,

Existem noites onde cabe uma vida.

terça-feira, 13 de novembro de 2012

O Elevador não me engole,



Cheguei ao elevador já com a mão na cabeça, desfiar a gravata e a arrastar a pasta pelo chão, a pensar que o elevador é um tempo curto e se este elevador parasse, é que era. Pensar em atirar as chaves para cima da mesa, deixar os sapatos pelo caminho, o casaco para um canto

- Arruma essa merda Toni!

e eu a atirar-me para o sofá, abrir uma cerveja, fumar um cigarro tudo em frente à televisão, nem precisava de estar a dar a bola, a televisão até poderia estar desligada.

- Raça do elevador não me engole!

Antes disto, aturar a má disposição do patrão:

- Com a crise, temos de trabalhar!

E o elevador que não pára o tempo, em que nós aqui entravamos aos amassos, eu a meter a mão em ti. Poderia ter escolhido um apartamento no último andar, mas não,

- Agora não posso discutir, eu sei… mas tenho de ir

E o trabalho a escassear, no inicio, óptimo mais tempo sobra, depois é lixado ter de inventar merdas para fazer, má disposição atrás de má disposição, quando um gajo é novo ainda vá, agora já chateia, o famoso Bullying do patrão,

- Dar corda aos sapatos! Temos de trabalhar! E um gajo a esconder a cabeça entre o monitor.

Até que ganhei coragem e agarrei o patrão pelos colarinhos e o chamei de:

-Sr. Engenheiro!

ou terá sido

- Cabrão,

E uma pessoa a ver o navio a afundar e nós é que somos os ratos corridos a pontapé,

- Acho que foi cabrão, pois vim embora na mesma.

- Como vou explicar em casa que fui despedido, este elevador que sobe e eu que me afundo entre os ombros.

- Raça do elevador não me engole!

Se calhar foi cabrão!

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Este texto é para tí, Bem-vindo...



Bem-vindo ao mundo que te acolhe, por vezes podes tropeçar, mas ampara-te no teu irmão, nos teu Pais que tantas expectativas e amor te sonharam, se quiseres apoia-te também em mim, cá estarei.

Juntos eu e teu Pai fantasiamos castelos, conquistamos muros, brincamos e trocamos brinquedos, descobrimos alegrias da adolescencia, saramos as dores de crescer, perspectivamos um futuro, reencontramos sempre alegrias quando estamos juntos ou aos longos telefonemas que nos confortam.

Tu e teu irmão, passarão pelos mesmos casos, mesmas vidas, sempre circundando as tormentas, de mãos dadas com a vida e o calor como afago, a amizade como amparo, teus Pais como fornalha. 

Estamos a crescer companheiro, somos adultos, estamos no futuro que falávamos, encontramos quem nos acompanha os passos nesta caminhada, somos seis vamos ser sete, nada como esta família tão grande para juntar à mesa e viver.

Bem-vindo à estrada que agora começas a percorrer. Vai ser bom ver o vosso caminho e desta geração que começa.

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Fui ao teu encontro




Dei uns passos soltos queria livrar-me do vazio que me persegue, beber só de um trago a felicidade plena, despir o sobretudo da solidão. Lá estava ela, deitada, pensei que a reconheceria de qualquer ponto, qualquer virgula, de entre a multidão, entre a imensidão estendida da relva.

O seu afago no cabelo foi o farol  que me encadeou, tantos mares passados, tantas tormentas e finalmente o porto onde posso deixar o barco solto, esse gesto leve levou-me até ela que dobrava a página com uma das mãos tão brancas que mergulhava no papel do livro, a outra segurava um cigarro.

Os seus pés brincavam com a relva descalços, a forma como se acariciavam um no outro faziam antever outras linhas entre lençóis. Pousou o livro quando olhou para mim e sorriu, de forma tão sedutora e ao mesmo tempo com um travo tão cândido no final, encorajou-me a procura-la a chegar-me até ela, beber do fundo doce que resta dos copos em festa e despir finalmente o sobretudo que carrego nos ombros.

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

FILME




Ele tem dois capacetes, uma mota  e andamos nela bem agarrados a percorrer a linha do Estoril, a cortar o vento, sentir a maré a percorrer a nossa roupa.

Ao fim da tarde ele passa e estaciona atrás do largo para ninguém ver, eu vou a correr e lá está ele com o capacete na mão, tal como o póster que eu tinha no quarto quando era miúda, mas no póster era um com o cabelo todo e magro, tinha um cigarro no canto da boca e estava fixado a olhar para mim enquanto me vestia, este só quando me dispo, que tanto me fazia exibir como resistir com pudor.

- Salta Mila!

Também existe o marido, mais gordo do que quando casou, eu no secundário, ele mais velho a trabalhar na oficina sem secundário, com a t-shirt enfeitada de dedadas pretas, com cheiro a pneu e óleo que leva para casa.

- Um dia vou ser gerente!

Eu toda contente por namorar um mais velho, "sou madura, vai ser gerente", enquanto fumava as escondidas atrás da escola com o baton vermelho colado ao cigarro.

O do póster, mesmo quando eu fechava os olhos, ficava quieto a tomar conta de mim sentado na mota em silêncio.

Agora o meu é gerente de nada, eu agora tenho o Tó que também é casado mas não sei nada dela, mas não deve rebolar com ele, pois comigo ele…

Eu tenho jeito para as unhas, mas gostava de ter jeito para fazer vestidos ou ser actriz, assim ficava rica e famosa, talvez venha um dia a pentear cabelos como a Betty e ter um salão só meu e aí sim, arranje um como o do póster, mas a sério.

- Salta Mila!

E lá vou eu passear na linha do Estoril esquecer o da oficina e as mãos de óleo que me procuram, sonhar que estou num filme com o do póster.



terça-feira, 30 de outubro de 2012

Nesta e na outra vida ou no intermédio

Se pudesse viver novamente aproveitava tudo ao seu ínfimo detalhe, ia para África como voluntário, ajuda humanitária, vivia despenteado. Em África tinha tempo para desenhar no moleskine,  aqui não tenho tempo, aturava o pó da terra quente, que nesta vida sou alérgico, brincava com todas as crianças que aqui só brinco com as que me são próximas.

Percorria países desconhecidos, atirava-me de riachos, banhava-me com ela nas cascatas que vejo na internet. Vivia de calções. Fazia amizades sem nunca ter dito uma palavra, estas, para toda uma vida.

Nesses países o banho era no sal, deitava fora o champô e creme hidratante, via esse sal escorrer-lhe pelo corpo sempre jovem, esquecia os livros esquecia jornais e notícias ofegantes de horror.
Andava por terras quentes onde o sustento era inato.

Não, não era anarquista ou vagabundo, era outro, tal como Mário de Sá Carneiro, não era eu nem o outro era qualquer coisa de intermédio… entre mim e o outro.

Não comprava um carro desportivo, andava de bicicleta entre as terras de sol. Mas mesmo sendo sempre o outro, aquele que viveria duas vezes, tinha sempre os mesmos Pais, aqueles que me colocaram neste mundo, que um dia pousava as malas poeirentas de África (eu que nem gosto de muito calor muito menos pó) e corria para seus braços contando a história das minhas rugas uma a uma. Eles me ouviriam pacientemente com um sorriso e me abraçavam como sempre.  Estes eram sempre os mesmos, nesta e na outra vida ou no intermédio.

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Halloween


Isso é coisa de filmes americanos, Halloween será que se diz feliz dia?

- Dia das bruxas! Gostava de saber se é dia da minha sogra cá vir? Mexericar a roupa que já tenho dobrada,

- Junta a flanela com a flanela, o algodão com o algodão...

Dia em que eu tenho de passar a ferro, por a roupa a lavar, estender, o Nando a deixar a roupa no chão antes de tomar banho, arrumar as gavetas...

- dia dos mortos vivos, eu que ando para aqui, nem tenho tempo para me arranjar, sem me pintar,

- O catraio a dizer que quer uma fatiota

Também eu gostava de uma nova, para dar uns passeiozitos.

Halloween, são os preços que vejo no super, isso sim, mete medo, é de fugir!
Estragar abóboras que dá para uma sopita, elas saem todas endiabradas à noite com mini-saias a ver tudo,  depois, levam porrada pelas horas que chegam sabe-se lá de onde e nós é que somos as bruxas. A dispensa vazia, o carro sem gasolina, paga isto, paga aquilo, a Vânia que não soube segurar o marido, humidades na casa, isso é que é assustador.

Ainda se o catraio aprendesse alguma coisa na escola, que a professora está farta de se vir queixar, eu é que não digo nada ao pai.

- Oh Tininha, o meu Nandinho gosta da sopa ralada! O meu Nandinho gosta das camisas assim e assadas.

- O catraio a dizer que quer uma fatiota para o halloween,

Fatiota dou-lha eu, se ele não se puser fino, não estudar e começar a arrumar o quarto, ou parar quieto com a bola que me parte os bibelots, que muitos até são dela, ou só se for para lhe pregar um valente susto e fazer a velha empacotar e visita-la nos Prazeres.

Oh Tininha o meu Nandinho...

Halloween, isso é coisa de americanos.

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

ESCREVO - TE HOJE OU ONTEM




Escrevo-te hoje, tal como te poderia escrever ontem, ou amanhã e esse amanhã é sempre amanhã, não, não estou a escrever-te sob o efeito de anti-depressivos que esses deixei-os na mesinha de cabeceira que já nem arrumas tal como o assado que já não fazes e dão-se mal com o Porto que tomo ás tuas escondidas depois de jantar, com o cigarro que fumo quando vou por o lixo sob esse pretexto.

Escrevo-te hoje, porque é hoje e não amanhã que é sempre depois, já esqueci o olhar que me cruzas quando não abro o correio, já esqueci de te colocar a mão enquanto vês a novela, não me mexer na cama para não te acordar

- já que estamos acordados, que tal se…

Agora quero é que não acordes, para não me metralhares que ressono, que não tratei das contas, que tenho que desentupir o cano, que tens insónias, que tens de fazer, que tu é que pensas em tudo, que tu tudo, tudo tu.

- já que estamos acordados, que tal se…

E com um sorriso rebolávamos no lençol, tu ainda sem pelo e loiro natural

- agora com a ciática nem penses, ainda no outro dia,

e o outro dia distante entre risos, depois de jantar com vinho e atirávamos a roupa para o chão,

agora:

- quem vai arrumar és tu! Não andas a tomar os comprimidos? Vais-me andar todo nu pela casa agora, a deitar pêlos por todo o lado

- já que estamos acordados, que tal se…

- e a digestão Tó , agora não, ainda no outro dia

O outro dia quando éramos novos e tu gemias alto e agora olhas para o teto e contas as lâmpadas do candeeiro em silencio e revês em surdina a lista do supermercado.

Podia escrever-te ontem, mas ontem tive de levar o carro á inspecção e não deu jeito, podia escrever-te amanhã, mas amanhã vou levar-te ao shopping para vermos as montras e depois de amanha também não dá jeito que tenho de ir aos correios.

- já que estamos acordados, que tal se…

Dizias tu com ar lambareiro, eu ria-me, não me perguntavas se tomei os comprimidos, se desliguei a máquina de lavar a loiça se desentupi o cano, se tirei os cabelos do ralo,

- Eu sou careca! Porra!

- Se alguém ouve ainda pensa que nos está a dar alguma coisinha má e chama os bombeiros, já viste a vergonha?

Antes dava-te era uma coisinha boa da forma como te mexias

- agora com a ciática nem penses, ainda no outro dia

no outro dia tivemos os anos da tua irmã, que me olha de lado pelas merdas das queixas que tu lhe fazes minhas, eu não olho de lado para ela por ela andar a fazer merda por aí e o Nando ter de lhe cascar. Sim não olho de lado para o meu cunhado por ele não fazer nada da vida e passar todo o dia no sofá com contrabando na garagem a espreitar as vizinhas e meter a mão nelas,

- só converso com a da tabacaria sobre o tempo!

Por beber em casa e partir tudo, eu bebo ás tuas escondidas depois de jantar, com o cigarro que fumo quando vou por o lixo, não olho de lado a tua irmã por  ser  vesga. Sim, eu sei que não gostas que fale assim da tua família, mas a verdade é que nunca sei para quem ela está a falar e isso confunde-me, mas o teu pai já me pode chamar banana, o teu cunhado de manso, a tua mãe de imprestável e

- já que estamos acordados, que tal se…

podia escrever-te amanhã, mas acho que é hoje que fazemos aniversário de casados, por isso

Parabéns e continuo a… tu sabes

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Encontros,



Primeiro sorrisos galantes, cumprimentos solenes, já aos primeiros copos trocam-se palavras alegres e ruidosas aos quintos copos já se trocam abraços e beijos, partilhas de amizade.

- Pronto, já estão na fase dos abraços!

Encontramos caras já distantes e amigos, sim amigos, daqueles que não esquecemos, que não vemos à meses mas que só a sua presença já nos preenche, já nos estimula a acreditar um pouco nos outros e na vida que um dia se teve e na que virá.
Não sabemos parte da sua vida, quase poderíamos dizer que não os acompanhamos, mas sabemos que isso não é verdade, sabemos que somos presentes mesmos ausentes, a ausência física, mas da presença constante, pelas historias vividas como as contadas, juntos traçamos um passado e futuro. Apesar dos meses de distancia parece que estivemos ontem... a amizade é assim, despida.

- Olhem para isto, parecem miúdos!

Sabemos que na mesa ao lado também está família, também estão amigos daqueles que se pode fazer toda a cagada, mas nós perdoamos e eles nos absolvem, que se riem no dia a seguir dos disparates ditos e feitos, isso é pureza, isso é amizade porque se entende, se sente. Coisas que só a eles se diz.

Amigos distantes e próximos em quilómetros que nos abraçam e amparam onde se trocam risos e loucuras mais inusitadas. Sentimos o verdadeiro significado da amizade, algo que sempre me acompanhou, seres que me foram apresentados uma vez e que esse foi um segmento de tempo continuo, perpetuo, tatuado na minha historia.

Aos sétimos copos já desfraldados com mais abraços amamos o mundo e a vida, acreditamos num futuro melhor e que o amor é eterno.
Aos de branco comprido e preto elegante tecem-se elogios, mais abraços e palavras de sorte, divertimo-nos e divertimo-los demonstramos o carinho que merecem.

- Amanhã ninguém os atura!

Aos amigos solidificamos as amarras que nos unem em todas as diferenças e em todas as semelhanças, acreditamos e admiramo-los, queremos encurtar as distancias. Pena uma noite ser tudo tão breve.

- São ainda uns miúdos!

Aos tantos copos já não me lembro… Mas fica cá dentro tudo tão quentinho que desejamos durar para sempre.

Para os amigos…  Foi tão bom encontrar-vos                                                                                                                                                                                                            

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Vou-te contar,


Vou-te contar como abracei a tua mãe quando soube que tu vinhas a caminho, na incerteza como com a estranheza clara de ser filho, passar a ser pai, como na primeira ecografia fiz festas em ti prolongado pelo belo ser que te carrega, foi o momento, 

 - Vou-te contar os meus sonhos de capa espada, ela vai-te contar como nos apaixonamos e o seu sonho de encantar noites de som.

Ainda não sei bem quem és, mas vens aí  na tua pequena capsula, depositamos nomes que mais tarde gostarás ou não, assim vais dar à terra.

Penso que está na altura de deixar o galho e amadurecer, vou-te contar como amo a tua mãe e como juntos te carregamos, vou-te contar uma biblioteca de letras que da estante me observam. Vou-te contar como vejo o amor, reflectido em ti e nela, ela vai-te falar de nós, nós vamos falar de ti.

-Importancia de Duchamp, o humor de Bansky, 

Ainda não sei o teu nome, ainda não te conheço, apenas te deslumbrei ao fundo do escuro, ela  sente-te, afaga-te e acaricia-te, eu, quero protege-la, a vocês.

Percebi que também já não posso ser miúdo, mas ainda posso chamar a tua mãe de 

 - Miúda!

Vamos te dizer que um dia me vais dar razão e como meu pai me disse

 - Bem vindo ao meu clube! Com um afago lindo e paternal, tal como agora lhe dou razão em tanta coisa.

- de Oscar Wilde, de Picasso, Monet ou Toulouse Lautrec

Vou-te contar,  vou amar-te vou amar-vos. 

- de Lucian Freud ou Francis Bacon

Até seguires o caminho que é só teu, eu estarei na janela com a tua mãe a ver-te, e tal como ouvi um dia:

-Se te perderes olha a sombra que tens colada aos pés e procura a tua mais velha metade

 - Vou amar-vos.