quinta-feira, 25 de outubro de 2012

ESCREVO - TE HOJE OU ONTEM




Escrevo-te hoje, tal como te poderia escrever ontem, ou amanhã e esse amanhã é sempre amanhã, não, não estou a escrever-te sob o efeito de anti-depressivos que esses deixei-os na mesinha de cabeceira que já nem arrumas tal como o assado que já não fazes e dão-se mal com o Porto que tomo ás tuas escondidas depois de jantar, com o cigarro que fumo quando vou por o lixo sob esse pretexto.

Escrevo-te hoje, porque é hoje e não amanhã que é sempre depois, já esqueci o olhar que me cruzas quando não abro o correio, já esqueci de te colocar a mão enquanto vês a novela, não me mexer na cama para não te acordar

- já que estamos acordados, que tal se…

Agora quero é que não acordes, para não me metralhares que ressono, que não tratei das contas, que tenho que desentupir o cano, que tens insónias, que tens de fazer, que tu é que pensas em tudo, que tu tudo, tudo tu.

- já que estamos acordados, que tal se…

E com um sorriso rebolávamos no lençol, tu ainda sem pelo e loiro natural

- agora com a ciática nem penses, ainda no outro dia,

e o outro dia distante entre risos, depois de jantar com vinho e atirávamos a roupa para o chão,

agora:

- quem vai arrumar és tu! Não andas a tomar os comprimidos? Vais-me andar todo nu pela casa agora, a deitar pêlos por todo o lado

- já que estamos acordados, que tal se…

- e a digestão Tó , agora não, ainda no outro dia

O outro dia quando éramos novos e tu gemias alto e agora olhas para o teto e contas as lâmpadas do candeeiro em silencio e revês em surdina a lista do supermercado.

Podia escrever-te ontem, mas ontem tive de levar o carro á inspecção e não deu jeito, podia escrever-te amanhã, mas amanhã vou levar-te ao shopping para vermos as montras e depois de amanha também não dá jeito que tenho de ir aos correios.

- já que estamos acordados, que tal se…

Dizias tu com ar lambareiro, eu ria-me, não me perguntavas se tomei os comprimidos, se desliguei a máquina de lavar a loiça se desentupi o cano, se tirei os cabelos do ralo,

- Eu sou careca! Porra!

- Se alguém ouve ainda pensa que nos está a dar alguma coisinha má e chama os bombeiros, já viste a vergonha?

Antes dava-te era uma coisinha boa da forma como te mexias

- agora com a ciática nem penses, ainda no outro dia

no outro dia tivemos os anos da tua irmã, que me olha de lado pelas merdas das queixas que tu lhe fazes minhas, eu não olho de lado para ela por ela andar a fazer merda por aí e o Nando ter de lhe cascar. Sim não olho de lado para o meu cunhado por ele não fazer nada da vida e passar todo o dia no sofá com contrabando na garagem a espreitar as vizinhas e meter a mão nelas,

- só converso com a da tabacaria sobre o tempo!

Por beber em casa e partir tudo, eu bebo ás tuas escondidas depois de jantar, com o cigarro que fumo quando vou por o lixo, não olho de lado a tua irmã por  ser  vesga. Sim, eu sei que não gostas que fale assim da tua família, mas a verdade é que nunca sei para quem ela está a falar e isso confunde-me, mas o teu pai já me pode chamar banana, o teu cunhado de manso, a tua mãe de imprestável e

- já que estamos acordados, que tal se…

podia escrever-te amanhã, mas acho que é hoje que fazemos aniversário de casados, por isso

Parabéns e continuo a… tu sabes

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