terça-feira, 30 de outubro de 2012

Nesta e na outra vida ou no intermédio

Se pudesse viver novamente aproveitava tudo ao seu ínfimo detalhe, ia para África como voluntário, ajuda humanitária, vivia despenteado. Em África tinha tempo para desenhar no moleskine,  aqui não tenho tempo, aturava o pó da terra quente, que nesta vida sou alérgico, brincava com todas as crianças que aqui só brinco com as que me são próximas.

Percorria países desconhecidos, atirava-me de riachos, banhava-me com ela nas cascatas que vejo na internet. Vivia de calções. Fazia amizades sem nunca ter dito uma palavra, estas, para toda uma vida.

Nesses países o banho era no sal, deitava fora o champô e creme hidratante, via esse sal escorrer-lhe pelo corpo sempre jovem, esquecia os livros esquecia jornais e notícias ofegantes de horror.
Andava por terras quentes onde o sustento era inato.

Não, não era anarquista ou vagabundo, era outro, tal como Mário de Sá Carneiro, não era eu nem o outro era qualquer coisa de intermédio… entre mim e o outro.

Não comprava um carro desportivo, andava de bicicleta entre as terras de sol. Mas mesmo sendo sempre o outro, aquele que viveria duas vezes, tinha sempre os mesmos Pais, aqueles que me colocaram neste mundo, que um dia pousava as malas poeirentas de África (eu que nem gosto de muito calor muito menos pó) e corria para seus braços contando a história das minhas rugas uma a uma. Eles me ouviriam pacientemente com um sorriso e me abraçavam como sempre.  Estes eram sempre os mesmos, nesta e na outra vida ou no intermédio.

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