segunda-feira, 4 de março de 2013

Um Táxi para tua casa





Estávamos os dois naquela hora entre a noite alta e a madrugada, a sentir a respiração quente dos lábios aquecidos pelo desejo, à porta do restaurante onde ao de leve toquei na sua perna, ela na minha mão em intimidade crescente.

Era outro, talvez tenha dado a imagem de um homem que sempre sonhei ser, ela estava agradada, agradava-me, sentia o sangue quente a correr pelas veias ajudado pelo vinho que me libertava um pouco, senti a leveza do meu corpo, com ela estava flutuante sem o peso que todo o homem carrega das pressões e angústias do trabalho, a tristeza madura do enxofre.

Minutos antes, 
sussurrávamos desejo, o restaurante vazio, tudo já arrumado para o dia seguinte, o homem que nos atendia pousava a cara na mão, o cotovelo na mesa, antecipando o sono, para nós a conversa não tinha termo, os temas não se esgotavam, eu cavaleiro, ela uma Valquíria de Odin para me levar deste mundo.

Horas antes, 
eu em casa, em frente ao espelho, a colocar o melhor rosto, o melhor guarda roupa, imaginar as minhas sortes. Há noites em que é bom ser o outro, não se sabe onde principia nem acaba. 

Neste momento,
- Bom, vou andando? Disse ela
- Tenho pena de terminar assim a noite! Disse com desejo lancinante.
Por alguns segundos ela desapareceu sem sair dali, talvez a pensar nas consequências da resposta,
- Apanhamos um táxi para minha casa…

Uma hora depois, 
Sentia o cheiro dos seus cabelos, sentia nas minhas mãos o calor do seu corpo, os seus olhos humedecidos de prazer, a respiração ofegante a penetrar o meu ouvido, e eu, um cavaleiro andante onde os moinhos de vento eram as minhas próprias angústias.

- E se eu pudesse ser sempre este?

Na manhã seguinte, 
ela na janela a se despedir, sorrindo, talvez ela por uma noite também tenha sido a outra, por uma noite…

domingo, 24 de fevereiro de 2013

Companheira



Caminho
de mãos dadas co'a tua sombra
na manhã de domingo,
sem me desviar
das braçadas das folhas.

Só tu me olhas,
só eu distingo
a imagem que de ti compus
em mil desenhos, em mil versos
tacteando universos
de trevas e de luz.

<< Companheira>>, Essência, Saúl Dias, 1973

Para ti, minha companheira, 
que sempre em mim viajas

Feliz Aniversário

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

O sinal fechado


O sinal fechado, tal como eu que fechei o meu coração, um dia.
Na mala do carro estão as minhas coisas, coisas de uma vida breve que tirei lá de casa, ainda por estrear, coisas, nada de especial.

Comecei a imaginar o nosso casamento, eu vestida de noiva e tu ao fundo, a envelhecer a ganhar barriga, perder cabelo.

- Será que ainda vou a tempo de cancelar tudo? 

À medida que me imaginava a avançar pela igreja via as flores que carregava entre as mãos a murcharem, um apartamento cheio de recordações do Gerês, Nazaré, porcelanas e eu a limpar isso tudo com um esfregão, não com um esfregão, com uma borracha para apagar de vez com o que poderia ter sido o meu futuro, o nosso calor sem chama. 

O vestido de noiva que ainda carrego quando o descolar do corpo vai tornar tudo mais leve. 

- Não cancelo! Nesta altura já ele sabe que não apareci, por esta altura já está com a cabeça em retalhos, tal como o meu coração que nunca consegui juntar para amar alguém. Afinal, por quem me apaixonei um dia, nunca mais voltou para mim, apenas com um bilhete se despediu.

- Volto já!

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Crónica de um Crime




- Sr. Agente vir aqui ao escritório, buscar-me, por uma coisa que nem sei como foi!

Eu a tomar o pequeno almoço na cozinha e o raio da velha estava a estender a roupa, ainda ouvi um chinelo a cair, mas não tive tempo para ver o que aconteceu, 

- Sabe é que tenho de entregar um relatório e hoje em dia não se brinca com o emprego, não me deu jeito acudir!

Depois eu a tirar o carro da garagem ainda vi um vulto no chão, mas estava a chover e de certeza que algum vizinho ia dar por isso, portanto, para quê chegar atrasado.
Talvez às 19h eu resolva esse assunto, ou então a Lurdes que vai sempre lá casa dê por isso.

- Não fui eu que a atirei! Pense Sr. Agente, ia fugir logo para o escritório?!

Eu sei que discutimos muitas vezes e ela é minha senhoria, cobra-me o couro por tudo que se passa lá em casa, mas atirar uma velha pela janela, mesmo quando o raio dos gatos dela fazem do meu tapete casa de banho, mandados por ela claro, sim, cheguei a tentar esganá-la no elevador, mas estávamos sozinhos não havia testemunhas. Ela para me chatear passou toda a noite com a televisão nas alturas e eu tenho um relatório para entregar, nunca tratou da banheira a pingar o meu teto, o meu carro aparece sempre com ovos esparramados, toca sempre à minha campainha e diz que se engana
- Pensava que era o botão da luz, é a idade!
E ainda a ouvia murmurar com um sorriso por entre a dentadura 
- Imprestável, tarado, filho desta e daquela!

- Porque tenho o chinelo da velha na minha pasta?! Não sei Sr. Agente é que por vezes passam-me uns nervos e não sei onde ponho as coisas! Chego inclusive a procurar durante dias!
- Agora se me dá licença tenho um relatório para acabar!

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Sussurravas graçolas



É verdade, sim, pensas que as garrafas que tinhas escondidas atrás do sofá que as tinhas acabado sem te aperceberes, pois bem, bebeste-as nos assados que fiz quando os meus pais vinham cá. Sim, pensavas que eu não sabia que te perfumavas todo para ires ter com alguma galdéria.

- Vou para a jogatina em casa do Raúl!

Raul, dizias tu com toda a lata, endireitando os colarinhos e a saíres com a camisa que eu passei a ferro, para ficares bem perante alguma, pois todo amarrotado já eu te conheço e a tua jogatina sei bem qual foi e quem perdeu foste tu, perdeste a fechadura da casa que agora é outra. Agora o Raúl coitado, sempre tão bem educado, lá está para beber e jogar.

- Vou à pesca com o Raúl!

Ou os telefonemas que recebias a horas estranhas e que sussurravas graçolas.
Agora vou eu beber ainda o fundo das garrafas boas que escondi para ocasiões especiais. Logo vem cá a Mitó e vamos beber as duas, talvez até lhe dê uma chave da nova fechadura, nunca se sabe quando vou precisar de auxílio, pois dizem que não se deve ficar só quando se está doente e as minhas tensões não estão lá grande coisa.  

Talvez até diga ao Raúl que é viúvo e anda sempre todo bem vestido, para vir até cá beber também do fundo das tuas garrafas e usar tudo que deixaste à espera, afinal apesar de já não ser novo até tem mais cabelo que tu e que se saiba não recebe nenhuma mulher, só se é pela calada, até se chegou a dizer que ele era... 

A não ser que te receba a ti, realmente... e que te tenhas andado a perfumar para ele... e as graçolas eram para ele e a jogatina realmente era outra sim, mas ... e a pescaria também... 

- O teu marido é muito amigo do Raul, não é?

Pronto, vou antes telefonar só à Mitó e ficamos cá as duas. Afinal o Raúl nunca me enganou.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

À espera de Godot




No café a tentar não olhar para os ponteiros do relógio. O chá numa mutação de estado de ebulição para frio, mas não o queria beber até ao fim, sabia que depois disso deixava de ter uma desculpa para estar ali.

Talvez daqui a nada alguém me toque no ombro e diz que hoje ele não vem.
Eu com tanto aprumo antes de sair de casa, agora a pensar qual a roupa que vestirei amanhã, pois hoje ele não deve aparecer. Ele no escritório a sorrir para mim, a ajudar-me com as fotocópias tão simpático. Já o imaginei tantas vezes com os nossos futuros filhos, deve ser atencioso, por de trás dos óculos envergonhados. Depois daquele toque ao mesmo tempo, não foi bem ao mesmo tempo, primeiro carreguei eu no botão do primeiro andar e depois ele com o dedo esticado passou ao de leve nas minhas unhas, aposto que ainda ficou pintalgado de vermelho, e a descermos os dois

- Depois de um dia de trabalho sabe bem espairecer!

Daí a 

- Vamos fugir!

Foram meia dúzia de encontros. Ora, não se diz isso a uma mulher agora solteira e depois não se aparece, que vestido vou trazer amanhã, logo hoje que me dava jeito lavar lãs.

Não quero acabar este chá, pois é sinal que tenho de voltar para casa para a vida de sempre, íamos fugir os dois, tu dizias que nada te prende em casa, fantasiamos, sim, deve ser a palavra certa, pois hoje não deves aparecer, tantos sítios para fugir, eu com aquelas meias a mostrar a coxa que tanto gabas, ser jovens novamente, dançar, esquecer que estamos a envelhecer.

Não se faz, não aparecer, a uma mulher agora solteira, pelo menos até às 20h que é quando o meu marido volta para casa, não se faz obrigar-me a desfazer a mala, se ainda apanhar o 37 talvez ainda consiga chegar a casa antes da hora e até ponho a máquina a lavar as lãs.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Os homens estão cada vez mais estranhos




Não estou a falar dos cremes e das depilações, nem tão pouco de não irem à tropa, nem dos ginásios e corridas, nem de os ver a passear no shopping de loja em loja. Não é isso, se bem que antigamente no shopping era vê-los sim à porta das lojas, onde até se travavam amizades momentâneas a apreciar as outras que passavam ou mesmo as empregadas da loja onde a mulher estava a comprar meias.

Agora bebem umas cervejas e rapidinho com uma pastilha de menta para a mulher não dizer que são alcoólicos.

Na minha altura ia-se para o café do Manel beber uns tragos e só se ia para casa quando fosse para a janta, forrar a barriga para aguentar mais uns!

Eu, com esta idade, vejo o meu filho a entrar nestas modas, rapar os pelos, calças de cores estranhas  justas e sem gostar da bola.

Hoje são elas a ir ao estádio! São eles que estendem a roupa! Qualquer dia até a lavam!

Ele a dizer que agora o homem é que põe a mesa, lava a loiça, cozinha e ainda pia fininho. No meu tempo, as mulheres eram cozinheiras, agora eles são chefs. 

Estão estranhos estes tempos onde o homem já não canta de galo, os filhos é que mandam em casa e até a mulher cacareja. 

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Pancadas de Molière


Lembro-me do corre corre das noites de estreia, hoje passados tantos e tantos anos e mais tantas personagens, ao espelho já me confundo com elas. Não sei quem me olha se é a mãe, a operária ou a mulher da vida.

- Todas elas me olham por detrás do espelho.

No início fiz papéis de filha, depois de amante sedutora, mãe e avó matriarca, círculo de vida que a maquilhagem não consegue apagar. Já vesti plumas, apresentei-me quase despida provocando escândalo, colhi risos e choros.

Hoje, o palco cheira a pó do soalho que range, as cadeiras vazias e eu com o risco dos olhos a desbotar por tudo se estar a perder, o filho que me esperava nos bastidores, que cresceu a ver a mãe sempre diferente todas as noites.

- Também ele se confundiu.

- Quem está aí, por detrás deste espelho? É Benilde, Ofélia ou a senhora Carrar de Brecht. A viúva rica ou a miúda pobre, a minha cara já se confunde com a delas que no tempo naufragam.

- Ora aparece uma, ora aparece outra. 

Mas nada apaga a felicidade das luzes sobre mim, do pano a correr para enfrentar a plateia escura ao encontro dos aplausos no final. Vivi tantas e tantas vidas, que são a minha em cenários à medida.

- Vivi todas elas com aplausos e todas elas me visitam ao espelho.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Style it Takes



Não sei se o que me atraiu foi o teu cabelo cor de fogo, a tua pele branca onde me imagino a contar os sinais,

- Não te conheço a voz

ou de te imaginar nas folhas perdidas da Vogue. Talvez seja o teu nariz arqueado que te traz um toque reminiscente da Belle Epoque. 

- Imagino os aromas que inspiras, gostava que fossem os da minha pele.

Ou então por toda tu seres uma tela de Warhol, onde a excentricidade tem lugar, talvez seja do baton a bater com a carteira ou o verniz com o colar.

- Vamos tirar uma fotografia já aqui, com uma música dos Velvet Underground a entrar pelo ouvido.

Cabelo cor de fogo, não vermelho. Uma mulher fêmea que se desenrola em belas formas  nos seus 15 minutos de fama, onde te procuro. Em cada imagem tua realizo o meu filme com poses onde o estilo é a personagem principal. Por vezes, posso não gostar do visual, mas existe sempre algo que seduz, um olhar, uma pose ou um gesto solto e não precisas de falar.

Um sinal, dois, por aí fora até me perder e começar de novo pela estrada branca da tua pele e encontrar-me no sinal que tens entre o peito.

Não a entrar pelo ouvido, a passear por ele, tal como te admirei numa tela de Warhol

Senta-te aí, vamos tirar uma fotografia … demoradamente

- Afinal gostas de atenção, eu gosto de te olhar.




segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Despedidas




Tenho pavor. Fujo da tristeza. Arranjo Sempre uma maneira para não me despedir. "Não saberei nunca dizer adeus" como Mia Couto escreveu no Poema da despedida, não tenho jeito.

- Ainda fui à estação mas só vi as costas do comboio! Mas também não te vou dizer isto, pois já me despedi sem dizer adeus, prefiro pensar em ti ainda lá em casa, quando chego e tu do outro lado à minha espera. Prefiro assim, quando vejo que não estás, penso que foste dar um passeio, mas voltas já, prefiro, deixa ser assim…

Sempre que nos despedimos viramos uma página que de longe parece tão bem escrita, não quero ver a casa vazia, que tantos e tantos bons momentos passei lá dentro, prefiro pensar que ainda está habitada com todos os móveis, a cama ainda no sítio e não na casa tal como uma ossada vazia, sem calor, não, não quero ver o sítio onde fui feliz, ninguém é feliz voltando onde o foi uma vez, por isso não acredito em segundas hipóteses, é apenas uma continuação de tudo, mas apenas com um perdão pelo meio. No dia da despedida prefiro passar para o dia seguinte e assim a dor vai passando, já foi ontem, friamente me coloco para não sentir a despedida, prefiro o eterno, prefiro pensar que ainda não fui a casa, que me esqueci das chaves.

- Ainda fui à estação mas só vi…

Não, não vi a tua mala feita, nem dei pelos teus sapatos não estarem espalhados por aí que em tanto esbarrava, não, não dei pela falta dos teus perfumes alinhados, não dei pela falta do teu livro na mesinha de cabeceira, não dei pela falta daquele bocado fresco que me roubavas no lençol, mas que tanto calor me trazia. Nunca reparei em nada disto. Também não decorei a data da tua partida, pois era a data da...
Prefiro pensar que ainda lá estás, vou demorar é a encontrar-te, não sei bem quando.

- as costas do comboio!

Agora a casa continua a sua vida com outros personagens, outras vidas, ouvir outras conversas , bati a porta e ainda disse baixinho

- Até já. Prefiro assim...

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Domingo no mundo




Dias assim, onde o acordar é lento a estender-se pela tarde. Tu com uma camisa minha que mostrava as tuas pernas, atiraste-te para o sofá agitando os longos cabelos.
Seguravas um iogurte que com o riso te caiu no colo, não precisei de colher.

As horas a passar e tudo a parecer tão lento, tão harmonioso, encostares o teu corpo no meu e o genérico do filme a que não estávamos atentos, apenas sentir a presença um do outro, o afago quente interior.
Nós no sofá sem ligação ao mundo, a minha camisa ficava-te tão bem. Para lá da vidraça corre o tempo, mas a nós não nos interessa, apenas o nosso sofá, onde o tempo não acaba e se prolonga nas nossas mãos. 

Retive a imagem comigo até hoje do teu salto descobrindo a camisa e mostrando-te um pouco mais, em bicos de pés, com a bebida tão quente como o nosso corpo.

Depois o teu corpo quente encostado ao meu, a vidraça a embaciar, a camisa perdida no chão, o mundo lá fora e nós perdidos no mundo.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Apressada e não sozinha



Tenho de ir para o ginásio que as carnes estão a ficar flácidas, ainda se o jeitoso do 3º dto. me desse uma piscadela de olhos.

Ainda no outro dia subia com uma amiga e ele a galar a rapariga, mas para mim nada. Eu sempre com desculpas para me encostar a ele com as compras do supermercado, com a comida do gato, que é o único que me espera. O elevador fundo e eu encostada a ele a um canto, a sentir a sua respiração.

Ele no outro dia a subir com uma garrafa de vinho na mão e eu à coca a ver se alguma lhe ia cair na rede que muitas já as ouvi, eu a querer dormir cedo e as molas da cama a rugir feito leões.

Deve ter um bom emprego, sempre bem vestido, já tentei saber, mas nada. O gato a olhar para mim quando entro em casa sobranceiro a dizer

- Outra vez a chegar a casa sozinha e a abanar os bigodes.

Farta de ir jantar todas acompanhadas e eu sempre sem ninguém, a dizer que o que me interessa é a minha vida livre, o tanas! Elas a abanar as pestanas por eu chegar sozinha a dizer que não tenho tempo para relações. 

Elas a  comprar lingerie exibidas e eu para quê? Só se for para mostrar ao meu gato que é o único que me espera, que nenhum me cai na rede. Ainda me vou vestir toda sexy e passar toda a noite para cima e para baixo no elevador para ver se é desta que passo a ir ao cinema, jantar fora a um restaurante romântico, passear sem ter que inventar um ar atarefado para mostrar que estou apressada e não sozinha. Acompanhada já posso passar férias e mostrar que afinal não é pelo mau feitio que estou sozinha. Deixar de pedir meia dose, nos retratos dos casamentos só aparecer eu e os noivos, ter alguém que me monte as prateleiras. Aquela do "mais vale só..." já está gasta.

Um dia ainda convido o jeitoso do vizinho de cima a provar a lasanha que faço tão bem, compro um vinho que já vi que ele gosta, ponho velas por toda a casa e 

- Outra vez a chegar a casa sozinha e a abanar os bigodes.

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

A dor do membro fantasma




"A dor do membro fantasma é uma das mais terríveis e fascinantes de todas as síndromes clínicas dolorosas, os pacientes queixam-se amargamente, vários meses, após a amputação, de ainda sentirem uma dor excessivamente forte no membro já amputado."


Não, não estou a dizer que és um membro meu, membro de quê? Apêndice? Nunca foste meu, muito menos ligado a mim algum dia estiveste.
As tuas desculpas sempre que falo na tua mulher

- Não posso, as crianças, já sabes como são!

Não, não sei, nunca tive crianças e as tuas só as vi de fotografias, que nem perto do parque posso estar, eu a achar que um dia poderia tratá-las como minhas.

- Calma, para o ano falamos nisso!

Não, não posso ter dor por não te ter, pois acho que te perdi um mês após o nosso encontro no hotel Mar.
Eu feita parva a arranjar a casa sempre que cá vens, a pensar que também um dia podias cá ficar, para sempre, não apenas para te servir de refúgio para não ouvires as queixas da tua mulher em casa.

- Isto é o abrigo do mundo!

Eu feita parva a cair nas tuas cantigas que é meu fado. Não, não estou a dizer que és um membro meu, membro de quê? Sempre foste um fantasma, para que saibas és mais um dente do siso que extraí, vou passar a língua e nunca mais te vou sentir, nem sentir saudades dos nossos serões, nem dos passeios no Gerês, nem dos filmes que víamos encostados, nem…

Nada irei sentir, mesmo quando não me atenderes as chamadas, afinal nunca foste meu.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

A sombra (letra sem refrão)




Quando a terra secar
os ventos  entrarem no meu corpo
o diamante rasgar as nuvens negras
as tempestades se diluírem em aguarelas

nesse dia, o sol adormecerá no outro lado
aquecendo meu corpo
secando tempos de ignomínia
despertando a liberdade dos meus sentidos

Quando os rios voltarem a fluir azul celestial
as marés baixarem de temperatura
a casa voltar a ser habitada 
Deixaremos de lado as palavras de cristal

nesse dia, o sol adormecerá a meu lado
aquecendo o meu corpo
os meus sentidos estarão livres
e deixaremos a sombra desprender-se do corpo.

Também tem o seu caminho.
Eu tenho o meu.

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Lady Brett Ashley (Fiesta)




Sem compromisso, nenhum, sem responsabilidades, viver a vida com os pés levantados, não mostrar o interior negro e vazio para lá da concha.

- Porque não me dizes amo-te?

A minha cabeça de costas voltadas, sem te responder, a pensar nisto, naquilo, a identidade é apenas exterior, rodeada de gente bonita, sem ligações ao mundo profundo, sem palco não há vida.

- Tu? Esparramado no sofá! Vais onde?

Os homens encantam-se com meus gestos perdidos, são atraídos à minha ilha, por lá ficam e me defendem, degladiam-se. Ser a única personagem de um livro, onde a geração perdida ocupa esplanadas de café, viajar de Paris  a Pamplona, sim, sei que não posso fugir de mim saltando de país para país,  podemos então, passear entre o romântico e o libertino sem sair daqui, talvez amargamente, tal como talvez na manha seguinte nem me lembre dos prazeres passados.

- porque já não dizes amo-te?

As minhas costas não te respondem, as tuas facturas datadas, o teu credito nulo, as palavras murchas, até já nem te percebo. Não posso ir a lado nenhum sozinha, mas também não me posso comprometer contigo, atrás de uma mesa com solas gastas e colarinho comprometido.
A tua desculpa  é o teu crédito negativo. Esse, que me deixa ficar mal.


Tal como The Sun Also Rises, também tu, talvez, te possas levantar.

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Hora,




Tinha dias em que pensava, no "porque não", agora é porque sim.
Antes só pensava na chegada, mas para isso é preciso partir.
Está na hora de partir para novas paragens novos amores, novos calores, provar outros sabores que o mundo tem para me oferecer.

- Agora sim.

Deixo pelas costas a vida que conheci, calores arrefecidos, eu, com as palavras que conheço de cotovelo roto e as paisagens tão familiares que já são os retratos que por eles passo e já nem ligo. Vou fazer novos retratos da vida, novas ilustrações mais coloridas, deixar os retratos na estante que já nem na moldura reparo, nem na sua cor esbatida que por eles o sol passa e deixa marca, gasta. Vou arranjar novos caminhos, novas personagens para lá colocar, ser também outra personagem  com vidas que contenho.

Distanciar-me dele, que me olha de avesso por todos os males que lhe acontecem, sempre com desculpas por tudo. Deixar a frieza do seu toque, onde o calor se extinguiu por passos mal dados, procurar um novo amor que me faça sentir estar num novo caminho, numa nova aventura, que afinal, vale a pena.

O retrato dele fica onde está, ao lado de outros também já gastos, eu é que vou em busca de novos ventos, sem nada que me ligue ao passado, em busca de novos futuros. A vida por vezes aparece assim, tudo em aberto.

- Porquê? Perguntava ele de olhos caídos.

Um caminho livre para percorrer, agora é porque sim, porque existem coisas que só por sí  já se justificam.

- Porque sim.