Lembro-me do corre corre das noites de estreia, hoje passados tantos e tantos anos e mais tantas personagens, ao espelho já me confundo com elas. Não sei quem me olha se é a mãe, a operária ou a mulher da vida.
- Todas elas me olham por detrás do espelho.
No início fiz papéis de filha, depois de amante sedutora, mãe e avó matriarca, círculo de vida que a maquilhagem não consegue apagar. Já vesti plumas, apresentei-me quase despida provocando escândalo, colhi risos e choros.
Hoje, o palco cheira a pó do soalho que range, as cadeiras vazias e eu com o risco dos olhos a desbotar por tudo se estar a perder, o filho que me esperava nos bastidores, que cresceu a ver a mãe sempre diferente todas as noites.
- Também ele se confundiu.
- Quem está aí, por detrás deste espelho? É Benilde, Ofélia ou a senhora Carrar de Brecht. A viúva rica ou a miúda pobre, a minha cara já se confunde com a delas que no tempo naufragam.
- Ora aparece uma, ora aparece outra.
Mas nada apaga a felicidade das luzes sobre mim, do pano a correr para enfrentar a plateia escura ao encontro dos aplausos no final. Vivi tantas e tantas vidas, que são a minha em cenários à medida.
- Vivi todas elas com aplausos e todas elas me visitam ao espelho.

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