Estávamos os dois naquela hora entre a noite alta e a madrugada, a sentir a respiração quente dos lábios aquecidos pelo desejo, à porta do restaurante onde ao de leve toquei na sua perna, ela na minha mão em intimidade crescente.
Era outro, talvez tenha dado a imagem de um homem que sempre sonhei ser, ela estava agradada, agradava-me, sentia o sangue quente a correr pelas veias ajudado pelo vinho que me libertava um pouco, senti a leveza do meu corpo, com ela estava flutuante sem o peso que todo o homem carrega das pressões e angústias do trabalho, a tristeza madura do enxofre.
Minutos antes,
sussurrávamos desejo, o restaurante vazio, tudo já arrumado para o dia seguinte, o homem que nos atendia pousava a cara na mão, o cotovelo na mesa, antecipando o sono, para nós a conversa não tinha termo, os temas não se esgotavam, eu cavaleiro, ela uma Valquíria de Odin para me levar deste mundo.
Horas antes,
eu em casa, em frente ao espelho, a colocar o melhor rosto, o melhor guarda roupa, imaginar as minhas sortes. Há noites em que é bom ser o outro, não se sabe onde principia nem acaba.
Neste momento,
- Bom, vou andando? Disse ela
- Tenho pena de terminar assim a noite! Disse com desejo lancinante.
Por alguns segundos ela desapareceu sem sair dali, talvez a pensar nas consequências da resposta,
- Apanhamos um táxi para minha casa…
Uma hora depois,
Sentia o cheiro dos seus cabelos, sentia nas minhas mãos o calor do seu corpo, os seus olhos humedecidos de prazer, a respiração ofegante a penetrar o meu ouvido, e eu, um cavaleiro andante onde os moinhos de vento eram as minhas próprias angústias.
- E se eu pudesse ser sempre este?
Na manhã seguinte,
ela na janela a se despedir, sorrindo, talvez ela por uma noite também tenha sido a outra, por uma noite…

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