sexta-feira, 30 de agosto de 2013
quarta-feira, 8 de maio de 2013
Tingia as que já lá estavam
Não sei, Maria, como passas por mim com esses olhos como carabinas apontadas. Não percebo como te deitas ao meu lado e enrolas os lençóis à tua volta só para eu não te tocar, envolta nessa mortalha.
- Eu que já estou num ponto em que só de ver um pescoço despido na rua trepo paredes!
Não sei porque fazes esse sorriso irónico quando te conto o meu dia, não sei como és capaz de enxotar a minha roupa tal qual moscas que te passam à frente, ou enxotar-me quando me ponho à tua frente, enxotar não, com mais indiferença ainda.
- Eu a diluir-me em cigarros, e na rua o decote mais ousado entranha.
Não percebo como fizeste a minha mala, tu que sempre que íamos para algum lado me obrigavas a fazer a minha. Vês como quando queres és colaborante? Poderíamos ser assim, não percebo como não atinamos nos horários, quando chego a casa já a mesa está levantada, ou a máquina já lavou a tua roupa e a minha é clara e não dava para juntar, ou é escura e a tua era clara e tingia as que já lá estavam. Nós sempre vivemos assim tal como a máquina de lavar roupa que tingia as que já lá estavam, desencontrados, não sei quando começou, esse desencontro.
- Onde queres que deixe a chave da casa, Maria?
- Nunca sabes nada e andas sempre a perguntar-me tudo! Estás a perceber o que falava Cristovão?
sexta-feira, 26 de abril de 2013
sexta-feira, 12 de abril de 2013
Diante de teus olhos
Diante de teus olhos me apresentei despido, sem valores, de bolsos rotos, nu, sem pejo algum. Nessa noite de volúpia em teu corpo rico fui destemido, teu ventre imortalizei e teu cheiro nu guardei, bem como o desenho do teu corpo ardente que sempre tinha almejado.
Mas acabei por sucumbir por lampejo em corpo quente, eu derretido na insegurança de um homem sem trono, guardo em mim esse abismo profundo sem amor algum.
Fui o Bobo de uma corte nocturna, agora que te encontro, eu sem trono nenhum diante dos teus olhos, tu menos ávida, com mais idade, eu sem nada para oferecer, tu sem nada para arrancar, rio que correu sem levar as margens consigo, fujo dessa vida sem sentido e com as mãos nos bolsos ainda rotos olho para trás e vejo o vazio de onde um dia me salvei, afinal teu reinado era vil, assim, diante de teus olhos me apresento com o desenho de teu corpo quente perdido numa gaveta qualquer sem fundo.
sexta-feira, 5 de abril de 2013
sexta-feira, 22 de março de 2013
quarta-feira, 20 de março de 2013
Para a Mãe e Filha...
Ela dá-me beijos
E papas de leite
Faz-me um chapeuzinho
Com as nuvens do céu
Põe na minha boca
A cara de seda
E canta comigo
Para eu não chorar
Não chores, não chores,
Com os olhos em mim
Toma mel, menininha,
E a tua boneca
Peço a deus arco-íris
No céu para ti
E solinho para sempre
Ela abraça-se a mim
Em noites sem sono
Ela tem de chorar
Com as dores de crescer
Que sonhos terá
Nas primeiras noite
Quando me chamar
Pelo nome dela?
Eu vou dar-te beijos e papas de leite
Muitos mimos e doces para comprares por ti
Hás-de rir pela rua
Mais alto que eu
A crescer sozinho
Ela dá-me beijos
E papas de leite
E boas razões
Para me ter nascido
E a nossa cara
Com lustro de seda
Até se fanar
Até se fanar.
sexta-feira, 8 de março de 2013
segunda-feira, 4 de março de 2013
Um Táxi para tua casa
Estávamos os dois naquela hora entre a noite alta e a madrugada, a sentir a respiração quente dos lábios aquecidos pelo desejo, à porta do restaurante onde ao de leve toquei na sua perna, ela na minha mão em intimidade crescente.
Era outro, talvez tenha dado a imagem de um homem que sempre sonhei ser, ela estava agradada, agradava-me, sentia o sangue quente a correr pelas veias ajudado pelo vinho que me libertava um pouco, senti a leveza do meu corpo, com ela estava flutuante sem o peso que todo o homem carrega das pressões e angústias do trabalho, a tristeza madura do enxofre.
Minutos antes,
sussurrávamos desejo, o restaurante vazio, tudo já arrumado para o dia seguinte, o homem que nos atendia pousava a cara na mão, o cotovelo na mesa, antecipando o sono, para nós a conversa não tinha termo, os temas não se esgotavam, eu cavaleiro, ela uma Valquíria de Odin para me levar deste mundo.
Horas antes,
eu em casa, em frente ao espelho, a colocar o melhor rosto, o melhor guarda roupa, imaginar as minhas sortes. Há noites em que é bom ser o outro, não se sabe onde principia nem acaba.
Neste momento,
- Bom, vou andando? Disse ela
- Tenho pena de terminar assim a noite! Disse com desejo lancinante.
Por alguns segundos ela desapareceu sem sair dali, talvez a pensar nas consequências da resposta,
- Apanhamos um táxi para minha casa…
Uma hora depois,
Sentia o cheiro dos seus cabelos, sentia nas minhas mãos o calor do seu corpo, os seus olhos humedecidos de prazer, a respiração ofegante a penetrar o meu ouvido, e eu, um cavaleiro andante onde os moinhos de vento eram as minhas próprias angústias.
- E se eu pudesse ser sempre este?
Na manhã seguinte,
ela na janela a se despedir, sorrindo, talvez ela por uma noite também tenha sido a outra, por uma noite…
sexta-feira, 1 de março de 2013
domingo, 24 de fevereiro de 2013
Companheira
Caminho
de mãos dadas co'a tua sombra
na manhã de domingo,
sem me desviar
das braçadas das folhas.
Só tu me olhas,
só eu distingo
a imagem que de ti compus
em mil desenhos, em mil versos
tacteando universos
de trevas e de luz.
<< Companheira>>, Essência, Saúl Dias, 1973
Para ti, minha companheira,
que sempre em mim viajas
Feliz Aniversário
sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013
quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013
O sinal fechado
O sinal fechado, tal como eu que fechei o meu coração, um dia.
Na mala do carro estão as minhas coisas, coisas de uma vida breve que tirei lá de casa, ainda por estrear, coisas, nada de especial.
Comecei a imaginar o nosso casamento, eu vestida de noiva e tu ao fundo, a envelhecer a ganhar barriga, perder cabelo.
- Será que ainda vou a tempo de cancelar tudo?
À medida que me imaginava a avançar pela igreja via as flores que carregava entre as mãos a murcharem, um apartamento cheio de recordações do Gerês, Nazaré, porcelanas e eu a limpar isso tudo com um esfregão, não com um esfregão, com uma borracha para apagar de vez com o que poderia ter sido o meu futuro, o nosso calor sem chama.
O vestido de noiva que ainda carrego quando o descolar do corpo vai tornar tudo mais leve.
- Não cancelo! Nesta altura já ele sabe que não apareci, por esta altura já está com a cabeça em retalhos, tal como o meu coração que nunca consegui juntar para amar alguém. Afinal, por quem me apaixonei um dia, nunca mais voltou para mim, apenas com um bilhete se despediu.
- Volto já!
sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013
segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013
Crónica de um Crime
- Sr. Agente vir aqui ao escritório, buscar-me, por uma coisa que nem sei como foi!
Eu a tomar o pequeno almoço na cozinha e o raio da velha estava a estender a roupa, ainda ouvi um chinelo a cair, mas não tive tempo para ver o que aconteceu,
- Sabe é que tenho de entregar um relatório e hoje em dia não se brinca com o emprego, não me deu jeito acudir!
Depois eu a tirar o carro da garagem ainda vi um vulto no chão, mas estava a chover e de certeza que algum vizinho ia dar por isso, portanto, para quê chegar atrasado.
Talvez às 19h eu resolva esse assunto, ou então a Lurdes que vai sempre lá casa dê por isso.
- Não fui eu que a atirei! Pense Sr. Agente, ia fugir logo para o escritório?!
Eu sei que discutimos muitas vezes e ela é minha senhoria, cobra-me o couro por tudo que se passa lá em casa, mas atirar uma velha pela janela, mesmo quando o raio dos gatos dela fazem do meu tapete casa de banho, mandados por ela claro, sim, cheguei a tentar esganá-la no elevador, mas estávamos sozinhos não havia testemunhas. Ela para me chatear passou toda a noite com a televisão nas alturas e eu tenho um relatório para entregar, nunca tratou da banheira a pingar o meu teto, o meu carro aparece sempre com ovos esparramados, toca sempre à minha campainha e diz que se engana
- Pensava que era o botão da luz, é a idade!
E ainda a ouvia murmurar com um sorriso por entre a dentadura
- Imprestável, tarado, filho desta e daquela!
- Porque tenho o chinelo da velha na minha pasta?! Não sei Sr. Agente é que por vezes passam-me uns nervos e não sei onde ponho as coisas! Chego inclusive a procurar durante dias!
- Agora se me dá licença tenho um relatório para acabar!
sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013
terça-feira, 5 de fevereiro de 2013
Sussurravas graçolas
É verdade, sim, pensas que as garrafas que tinhas escondidas atrás do sofá que as tinhas acabado sem te aperceberes, pois bem, bebeste-as nos assados que fiz quando os meus pais vinham cá. Sim, pensavas que eu não sabia que te perfumavas todo para ires ter com alguma galdéria.
- Vou para a jogatina em casa do Raúl!
Raul, dizias tu com toda a lata, endireitando os colarinhos e a saíres com a camisa que eu passei a ferro, para ficares bem perante alguma, pois todo amarrotado já eu te conheço e a tua jogatina sei bem qual foi e quem perdeu foste tu, perdeste a fechadura da casa que agora é outra. Agora o Raúl coitado, sempre tão bem educado, lá está para beber e jogar.
- Vou à pesca com o Raúl!
Ou os telefonemas que recebias a horas estranhas e que sussurravas graçolas.
Agora vou eu beber ainda o fundo das garrafas boas que escondi para ocasiões especiais. Logo vem cá a Mitó e vamos beber as duas, talvez até lhe dê uma chave da nova fechadura, nunca se sabe quando vou precisar de auxílio, pois dizem que não se deve ficar só quando se está doente e as minhas tensões não estão lá grande coisa.
Talvez até diga ao Raúl que é viúvo e anda sempre todo bem vestido, para vir até cá beber também do fundo das tuas garrafas e usar tudo que deixaste à espera, afinal apesar de já não ser novo até tem mais cabelo que tu e que se saiba não recebe nenhuma mulher, só se é pela calada, até se chegou a dizer que ele era...
A não ser que te receba a ti, realmente... e que te tenhas andado a perfumar para ele... e as graçolas eram para ele e a jogatina realmente era outra sim, mas ... e a pescaria também...
- O teu marido é muito amigo do Raul, não é?
Pronto, vou antes telefonar só à Mitó e ficamos cá as duas. Afinal o Raúl nunca me enganou.
sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013
quarta-feira, 30 de janeiro de 2013
À espera de Godot
No café a tentar não olhar para os ponteiros do relógio. O chá numa mutação de estado de ebulição para frio, mas não o queria beber até ao fim, sabia que depois disso deixava de ter uma desculpa para estar ali.
Talvez daqui a nada alguém me toque no ombro e diz que hoje ele não vem.
Eu com tanto aprumo antes de sair de casa, agora a pensar qual a roupa que vestirei amanhã, pois hoje ele não deve aparecer. Ele no escritório a sorrir para mim, a ajudar-me com as fotocópias tão simpático. Já o imaginei tantas vezes com os nossos futuros filhos, deve ser atencioso, por de trás dos óculos envergonhados. Depois daquele toque ao mesmo tempo, não foi bem ao mesmo tempo, primeiro carreguei eu no botão do primeiro andar e depois ele com o dedo esticado passou ao de leve nas minhas unhas, aposto que ainda ficou pintalgado de vermelho, e a descermos os dois
- Depois de um dia de trabalho sabe bem espairecer!
Daí a
- Vamos fugir!
Foram meia dúzia de encontros. Ora, não se diz isso a uma mulher agora solteira e depois não se aparece, que vestido vou trazer amanhã, logo hoje que me dava jeito lavar lãs.
Não quero acabar este chá, pois é sinal que tenho de voltar para casa para a vida de sempre, íamos fugir os dois, tu dizias que nada te prende em casa, fantasiamos, sim, deve ser a palavra certa, pois hoje não deves aparecer, tantos sítios para fugir, eu com aquelas meias a mostrar a coxa que tanto gabas, ser jovens novamente, dançar, esquecer que estamos a envelhecer.
Não se faz, não aparecer, a uma mulher agora solteira, pelo menos até às 20h que é quando o meu marido volta para casa, não se faz obrigar-me a desfazer a mala, se ainda apanhar o 37 talvez ainda consiga chegar a casa antes da hora e até ponho a máquina a lavar as lãs.
sexta-feira, 25 de janeiro de 2013
quarta-feira, 23 de janeiro de 2013
Os homens estão cada vez mais estranhos
Não estou a falar dos cremes e das depilações, nem tão pouco de não irem à tropa, nem dos ginásios e corridas, nem de os ver a passear no shopping de loja em loja. Não é isso, se bem que antigamente no shopping era vê-los sim à porta das lojas, onde até se travavam amizades momentâneas a apreciar as outras que passavam ou mesmo as empregadas da loja onde a mulher estava a comprar meias.
Agora bebem umas cervejas e rapidinho com uma pastilha de menta para a mulher não dizer que são alcoólicos.
Na minha altura ia-se para o café do Manel beber uns tragos e só se ia para casa quando fosse para a janta, forrar a barriga para aguentar mais uns!
Eu, com esta idade, vejo o meu filho a entrar nestas modas, rapar os pelos, calças de cores estranhas justas e sem gostar da bola.
Hoje são elas a ir ao estádio! São eles que estendem a roupa! Qualquer dia até a lavam!
Ele a dizer que agora o homem é que põe a mesa, lava a loiça, cozinha e ainda pia fininho. No meu tempo, as mulheres eram cozinheiras, agora eles são chefs.
Estão estranhos estes tempos onde o homem já não canta de galo, os filhos é que mandam em casa e até a mulher cacareja.
sexta-feira, 18 de janeiro de 2013
terça-feira, 15 de janeiro de 2013
Pancadas de Molière
Lembro-me do corre corre das noites de estreia, hoje passados tantos e tantos anos e mais tantas personagens, ao espelho já me confundo com elas. Não sei quem me olha se é a mãe, a operária ou a mulher da vida.
- Todas elas me olham por detrás do espelho.
No início fiz papéis de filha, depois de amante sedutora, mãe e avó matriarca, círculo de vida que a maquilhagem não consegue apagar. Já vesti plumas, apresentei-me quase despida provocando escândalo, colhi risos e choros.
Hoje, o palco cheira a pó do soalho que range, as cadeiras vazias e eu com o risco dos olhos a desbotar por tudo se estar a perder, o filho que me esperava nos bastidores, que cresceu a ver a mãe sempre diferente todas as noites.
- Também ele se confundiu.
- Quem está aí, por detrás deste espelho? É Benilde, Ofélia ou a senhora Carrar de Brecht. A viúva rica ou a miúda pobre, a minha cara já se confunde com a delas que no tempo naufragam.
- Ora aparece uma, ora aparece outra.
Mas nada apaga a felicidade das luzes sobre mim, do pano a correr para enfrentar a plateia escura ao encontro dos aplausos no final. Vivi tantas e tantas vidas, que são a minha em cenários à medida.
- Vivi todas elas com aplausos e todas elas me visitam ao espelho.
sexta-feira, 11 de janeiro de 2013
terça-feira, 8 de janeiro de 2013
Style it Takes
Não sei se o que me atraiu foi o teu cabelo cor de fogo, a tua pele branca onde me imagino a contar os sinais,
- Não te conheço a voz
ou de te imaginar nas folhas perdidas da Vogue. Talvez seja o teu nariz arqueado que te traz um toque reminiscente da Belle Epoque.
- Imagino os aromas que inspiras, gostava que fossem os da minha pele.
Ou então por toda tu seres uma tela de Warhol, onde a excentricidade tem lugar, talvez seja do baton a bater com a carteira ou o verniz com o colar.
- Vamos tirar uma fotografia já aqui, com uma música dos Velvet Underground a entrar pelo ouvido.
Cabelo cor de fogo, não vermelho. Uma mulher fêmea que se desenrola em belas formas nos seus 15 minutos de fama, onde te procuro. Em cada imagem tua realizo o meu filme com poses onde o estilo é a personagem principal. Por vezes, posso não gostar do visual, mas existe sempre algo que seduz, um olhar, uma pose ou um gesto solto e não precisas de falar.
Um sinal, dois, por aí fora até me perder e começar de novo pela estrada branca da tua pele e encontrar-me no sinal que tens entre o peito.
Não a entrar pelo ouvido, a passear por ele, tal como te admirei numa tela de Warhol
Senta-te aí, vamos tirar uma fotografia … demoradamente
- Afinal gostas de atenção, eu gosto de te olhar.
sexta-feira, 4 de janeiro de 2013
Subscrever:
Comentários (Atom)











