Não sei, Maria, como passas por mim com esses olhos como carabinas apontadas. Não percebo como te deitas ao meu lado e enrolas os lençóis à tua volta só para eu não te tocar, envolta nessa mortalha.
- Eu que já estou num ponto em que só de ver um pescoço despido na rua trepo paredes!
Não sei porque fazes esse sorriso irónico quando te conto o meu dia, não sei como és capaz de enxotar a minha roupa tal qual moscas que te passam à frente, ou enxotar-me quando me ponho à tua frente, enxotar não, com mais indiferença ainda.
- Eu a diluir-me em cigarros, e na rua o decote mais ousado entranha.
Não percebo como fizeste a minha mala, tu que sempre que íamos para algum lado me obrigavas a fazer a minha. Vês como quando queres és colaborante? Poderíamos ser assim, não percebo como não atinamos nos horários, quando chego a casa já a mesa está levantada, ou a máquina já lavou a tua roupa e a minha é clara e não dava para juntar, ou é escura e a tua era clara e tingia as que já lá estavam. Nós sempre vivemos assim tal como a máquina de lavar roupa que tingia as que já lá estavam, desencontrados, não sei quando começou, esse desencontro.
- Onde queres que deixe a chave da casa, Maria?
- Nunca sabes nada e andas sempre a perguntar-me tudo! Estás a perceber o que falava Cristovão?

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