quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Lady Brett Ashley (Fiesta)




Sem compromisso, nenhum, sem responsabilidades, viver a vida com os pés levantados, não mostrar o interior negro e vazio para lá da concha.

- Porque não me dizes amo-te?

A minha cabeça de costas voltadas, sem te responder, a pensar nisto, naquilo, a identidade é apenas exterior, rodeada de gente bonita, sem ligações ao mundo profundo, sem palco não há vida.

- Tu? Esparramado no sofá! Vais onde?

Os homens encantam-se com meus gestos perdidos, são atraídos à minha ilha, por lá ficam e me defendem, degladiam-se. Ser a única personagem de um livro, onde a geração perdida ocupa esplanadas de café, viajar de Paris  a Pamplona, sim, sei que não posso fugir de mim saltando de país para país,  podemos então, passear entre o romântico e o libertino sem sair daqui, talvez amargamente, tal como talvez na manha seguinte nem me lembre dos prazeres passados.

- porque já não dizes amo-te?

As minhas costas não te respondem, as tuas facturas datadas, o teu credito nulo, as palavras murchas, até já nem te percebo. Não posso ir a lado nenhum sozinha, mas também não me posso comprometer contigo, atrás de uma mesa com solas gastas e colarinho comprometido.
A tua desculpa  é o teu crédito negativo. Esse, que me deixa ficar mal.


Tal como The Sun Also Rises, também tu, talvez, te possas levantar.

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Hora,




Tinha dias em que pensava, no "porque não", agora é porque sim.
Antes só pensava na chegada, mas para isso é preciso partir.
Está na hora de partir para novas paragens novos amores, novos calores, provar outros sabores que o mundo tem para me oferecer.

- Agora sim.

Deixo pelas costas a vida que conheci, calores arrefecidos, eu, com as palavras que conheço de cotovelo roto e as paisagens tão familiares que já são os retratos que por eles passo e já nem ligo. Vou fazer novos retratos da vida, novas ilustrações mais coloridas, deixar os retratos na estante que já nem na moldura reparo, nem na sua cor esbatida que por eles o sol passa e deixa marca, gasta. Vou arranjar novos caminhos, novas personagens para lá colocar, ser também outra personagem  com vidas que contenho.

Distanciar-me dele, que me olha de avesso por todos os males que lhe acontecem, sempre com desculpas por tudo. Deixar a frieza do seu toque, onde o calor se extinguiu por passos mal dados, procurar um novo amor que me faça sentir estar num novo caminho, numa nova aventura, que afinal, vale a pena.

O retrato dele fica onde está, ao lado de outros também já gastos, eu é que vou em busca de novos ventos, sem nada que me ligue ao passado, em busca de novos futuros. A vida por vezes aparece assim, tudo em aberto.

- Porquê? Perguntava ele de olhos caídos.

Um caminho livre para percorrer, agora é porque sim, porque existem coisas que só por sí  já se justificam.

- Porque sim.

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Esta vida não está fácil,




É lixado, mas sou verdadeiro

- Amas-me?

- Queres que minta? Não vamos complicar a coisa!

Esta vida não está fácil para pessoas honestas.

- O meu marido não olha para mim, se calhar já não sou jeitosa?

- Ora deixa cá ver, claro que preciso de experimentar o artigo uns dias e depois vem a verdade,

- Sim realmente podias trabalhar mais os glúteos, estão a ficar descaídos! E troco de artigo, que de danificados já tenho a aparelhagem da sala que não funciona. Depois elas intoxicadas com livros de auto-ajuda. Querem relações, falar de pais e filhos, juntar trapos e o porquê de os rasgar.

Mas agora até isso está difícil, com a idade, as ressacas mais difíceis, as convivências mais sofríveis, a cerveja e o café mais caros, engolir as merdas que nos dizem é cada vez mais complicado de passar na goela.

Não, isto não está fácil, ainda por cima não amealhei o suficiente para o descapotável, para as Imperiais em Cascais, para o bronze no Algarve.

- Ficamos juntos para sempre?

As relações mais destruídas, o escape mais fácil, as desculpas mais esfarrapadas e com menos teor.

- Queres que minta! Não, não vamos complicar a coisa!

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Salvo-te





Faltavam 5 dias para partir,

- Pena só nos encontrarmos agora, 
- Acredito no amor e o nosso esgotou, dizias tu referindo-te a ele, 
- O convite fica aqui, podemos jantar?
- Sim, em minha casa.

Senti o teu perfume ainda pela porta que nos separava, o teu sorriso quando me recebeste.
Recordo bem o teu anel a tocar no copo de vinho, 

- Lá do teu "Terroir", especialmente para tí.

- Pena só nos encontrarmos agora, 

Recordo-me  bem da tua casa, com livros e a máquina fotográfica pousada a um canto que retratavas tudo a teu jeito. Da música que fazia, dos teus desenhos espalhados, dos teus pés descalços.

- Tu  mereces que o amor nunca se esgote, dizias, colocando-me lá no alto.

Nunca esquecerei o teu perfume, o tom da tua pele, a sua textura suave e deslizante.

- Um dia que o teu amor se esgotar, eu salvo-te, dizias tu com a luz da chama a iluminar-te parte do rosto,

- Não precisas de mais nada, apenas de continuares a seres Tu,

A garrafa vazia, a sobremesa a derreter, a temperatura a subir, o teu vestido preto.

Eu lá no alto.

- A convivencia mata o encanto, atirei.

- Acredito na essência, dizia ela com erudição e o seu dedo longo e delicado acariciava o copo.

A mala estava pronta e tanto para levar comigo que não cabia em nenhum espaço deste mundo.

- Um dia que o teu amor se esgotar, eu salvo-te,

Existem noites onde cabe uma vida.

terça-feira, 13 de novembro de 2012

O Elevador não me engole,



Cheguei ao elevador já com a mão na cabeça, desfiar a gravata e a arrastar a pasta pelo chão, a pensar que o elevador é um tempo curto e se este elevador parasse, é que era. Pensar em atirar as chaves para cima da mesa, deixar os sapatos pelo caminho, o casaco para um canto

- Arruma essa merda Toni!

e eu a atirar-me para o sofá, abrir uma cerveja, fumar um cigarro tudo em frente à televisão, nem precisava de estar a dar a bola, a televisão até poderia estar desligada.

- Raça do elevador não me engole!

Antes disto, aturar a má disposição do patrão:

- Com a crise, temos de trabalhar!

E o elevador que não pára o tempo, em que nós aqui entravamos aos amassos, eu a meter a mão em ti. Poderia ter escolhido um apartamento no último andar, mas não,

- Agora não posso discutir, eu sei… mas tenho de ir

E o trabalho a escassear, no inicio, óptimo mais tempo sobra, depois é lixado ter de inventar merdas para fazer, má disposição atrás de má disposição, quando um gajo é novo ainda vá, agora já chateia, o famoso Bullying do patrão,

- Dar corda aos sapatos! Temos de trabalhar! E um gajo a esconder a cabeça entre o monitor.

Até que ganhei coragem e agarrei o patrão pelos colarinhos e o chamei de:

-Sr. Engenheiro!

ou terá sido

- Cabrão,

E uma pessoa a ver o navio a afundar e nós é que somos os ratos corridos a pontapé,

- Acho que foi cabrão, pois vim embora na mesma.

- Como vou explicar em casa que fui despedido, este elevador que sobe e eu que me afundo entre os ombros.

- Raça do elevador não me engole!

Se calhar foi cabrão!

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Este texto é para tí, Bem-vindo...



Bem-vindo ao mundo que te acolhe, por vezes podes tropeçar, mas ampara-te no teu irmão, nos teu Pais que tantas expectativas e amor te sonharam, se quiseres apoia-te também em mim, cá estarei.

Juntos eu e teu Pai fantasiamos castelos, conquistamos muros, brincamos e trocamos brinquedos, descobrimos alegrias da adolescencia, saramos as dores de crescer, perspectivamos um futuro, reencontramos sempre alegrias quando estamos juntos ou aos longos telefonemas que nos confortam.

Tu e teu irmão, passarão pelos mesmos casos, mesmas vidas, sempre circundando as tormentas, de mãos dadas com a vida e o calor como afago, a amizade como amparo, teus Pais como fornalha. 

Estamos a crescer companheiro, somos adultos, estamos no futuro que falávamos, encontramos quem nos acompanha os passos nesta caminhada, somos seis vamos ser sete, nada como esta família tão grande para juntar à mesa e viver.

Bem-vindo à estrada que agora começas a percorrer. Vai ser bom ver o vosso caminho e desta geração que começa.

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Fui ao teu encontro




Dei uns passos soltos queria livrar-me do vazio que me persegue, beber só de um trago a felicidade plena, despir o sobretudo da solidão. Lá estava ela, deitada, pensei que a reconheceria de qualquer ponto, qualquer virgula, de entre a multidão, entre a imensidão estendida da relva.

O seu afago no cabelo foi o farol  que me encadeou, tantos mares passados, tantas tormentas e finalmente o porto onde posso deixar o barco solto, esse gesto leve levou-me até ela que dobrava a página com uma das mãos tão brancas que mergulhava no papel do livro, a outra segurava um cigarro.

Os seus pés brincavam com a relva descalços, a forma como se acariciavam um no outro faziam antever outras linhas entre lençóis. Pousou o livro quando olhou para mim e sorriu, de forma tão sedutora e ao mesmo tempo com um travo tão cândido no final, encorajou-me a procura-la a chegar-me até ela, beber do fundo doce que resta dos copos em festa e despir finalmente o sobretudo que carrego nos ombros.

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

FILME




Ele tem dois capacetes, uma mota  e andamos nela bem agarrados a percorrer a linha do Estoril, a cortar o vento, sentir a maré a percorrer a nossa roupa.

Ao fim da tarde ele passa e estaciona atrás do largo para ninguém ver, eu vou a correr e lá está ele com o capacete na mão, tal como o póster que eu tinha no quarto quando era miúda, mas no póster era um com o cabelo todo e magro, tinha um cigarro no canto da boca e estava fixado a olhar para mim enquanto me vestia, este só quando me dispo, que tanto me fazia exibir como resistir com pudor.

- Salta Mila!

Também existe o marido, mais gordo do que quando casou, eu no secundário, ele mais velho a trabalhar na oficina sem secundário, com a t-shirt enfeitada de dedadas pretas, com cheiro a pneu e óleo que leva para casa.

- Um dia vou ser gerente!

Eu toda contente por namorar um mais velho, "sou madura, vai ser gerente", enquanto fumava as escondidas atrás da escola com o baton vermelho colado ao cigarro.

O do póster, mesmo quando eu fechava os olhos, ficava quieto a tomar conta de mim sentado na mota em silêncio.

Agora o meu é gerente de nada, eu agora tenho o Tó que também é casado mas não sei nada dela, mas não deve rebolar com ele, pois comigo ele…

Eu tenho jeito para as unhas, mas gostava de ter jeito para fazer vestidos ou ser actriz, assim ficava rica e famosa, talvez venha um dia a pentear cabelos como a Betty e ter um salão só meu e aí sim, arranje um como o do póster, mas a sério.

- Salta Mila!

E lá vou eu passear na linha do Estoril esquecer o da oficina e as mãos de óleo que me procuram, sonhar que estou num filme com o do póster.