terça-feira, 30 de outubro de 2012

Nesta e na outra vida ou no intermédio

Se pudesse viver novamente aproveitava tudo ao seu ínfimo detalhe, ia para África como voluntário, ajuda humanitária, vivia despenteado. Em África tinha tempo para desenhar no moleskine,  aqui não tenho tempo, aturava o pó da terra quente, que nesta vida sou alérgico, brincava com todas as crianças que aqui só brinco com as que me são próximas.

Percorria países desconhecidos, atirava-me de riachos, banhava-me com ela nas cascatas que vejo na internet. Vivia de calções. Fazia amizades sem nunca ter dito uma palavra, estas, para toda uma vida.

Nesses países o banho era no sal, deitava fora o champô e creme hidratante, via esse sal escorrer-lhe pelo corpo sempre jovem, esquecia os livros esquecia jornais e notícias ofegantes de horror.
Andava por terras quentes onde o sustento era inato.

Não, não era anarquista ou vagabundo, era outro, tal como Mário de Sá Carneiro, não era eu nem o outro era qualquer coisa de intermédio… entre mim e o outro.

Não comprava um carro desportivo, andava de bicicleta entre as terras de sol. Mas mesmo sendo sempre o outro, aquele que viveria duas vezes, tinha sempre os mesmos Pais, aqueles que me colocaram neste mundo, que um dia pousava as malas poeirentas de África (eu que nem gosto de muito calor muito menos pó) e corria para seus braços contando a história das minhas rugas uma a uma. Eles me ouviriam pacientemente com um sorriso e me abraçavam como sempre.  Estes eram sempre os mesmos, nesta e na outra vida ou no intermédio.

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Halloween


Isso é coisa de filmes americanos, Halloween será que se diz feliz dia?

- Dia das bruxas! Gostava de saber se é dia da minha sogra cá vir? Mexericar a roupa que já tenho dobrada,

- Junta a flanela com a flanela, o algodão com o algodão...

Dia em que eu tenho de passar a ferro, por a roupa a lavar, estender, o Nando a deixar a roupa no chão antes de tomar banho, arrumar as gavetas...

- dia dos mortos vivos, eu que ando para aqui, nem tenho tempo para me arranjar, sem me pintar,

- O catraio a dizer que quer uma fatiota

Também eu gostava de uma nova, para dar uns passeiozitos.

Halloween, são os preços que vejo no super, isso sim, mete medo, é de fugir!
Estragar abóboras que dá para uma sopita, elas saem todas endiabradas à noite com mini-saias a ver tudo,  depois, levam porrada pelas horas que chegam sabe-se lá de onde e nós é que somos as bruxas. A dispensa vazia, o carro sem gasolina, paga isto, paga aquilo, a Vânia que não soube segurar o marido, humidades na casa, isso é que é assustador.

Ainda se o catraio aprendesse alguma coisa na escola, que a professora está farta de se vir queixar, eu é que não digo nada ao pai.

- Oh Tininha, o meu Nandinho gosta da sopa ralada! O meu Nandinho gosta das camisas assim e assadas.

- O catraio a dizer que quer uma fatiota para o halloween,

Fatiota dou-lha eu, se ele não se puser fino, não estudar e começar a arrumar o quarto, ou parar quieto com a bola que me parte os bibelots, que muitos até são dela, ou só se for para lhe pregar um valente susto e fazer a velha empacotar e visita-la nos Prazeres.

Oh Tininha o meu Nandinho...

Halloween, isso é coisa de americanos.

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

ESCREVO - TE HOJE OU ONTEM




Escrevo-te hoje, tal como te poderia escrever ontem, ou amanhã e esse amanhã é sempre amanhã, não, não estou a escrever-te sob o efeito de anti-depressivos que esses deixei-os na mesinha de cabeceira que já nem arrumas tal como o assado que já não fazes e dão-se mal com o Porto que tomo ás tuas escondidas depois de jantar, com o cigarro que fumo quando vou por o lixo sob esse pretexto.

Escrevo-te hoje, porque é hoje e não amanhã que é sempre depois, já esqueci o olhar que me cruzas quando não abro o correio, já esqueci de te colocar a mão enquanto vês a novela, não me mexer na cama para não te acordar

- já que estamos acordados, que tal se…

Agora quero é que não acordes, para não me metralhares que ressono, que não tratei das contas, que tenho que desentupir o cano, que tens insónias, que tens de fazer, que tu é que pensas em tudo, que tu tudo, tudo tu.

- já que estamos acordados, que tal se…

E com um sorriso rebolávamos no lençol, tu ainda sem pelo e loiro natural

- agora com a ciática nem penses, ainda no outro dia,

e o outro dia distante entre risos, depois de jantar com vinho e atirávamos a roupa para o chão,

agora:

- quem vai arrumar és tu! Não andas a tomar os comprimidos? Vais-me andar todo nu pela casa agora, a deitar pêlos por todo o lado

- já que estamos acordados, que tal se…

- e a digestão Tó , agora não, ainda no outro dia

O outro dia quando éramos novos e tu gemias alto e agora olhas para o teto e contas as lâmpadas do candeeiro em silencio e revês em surdina a lista do supermercado.

Podia escrever-te ontem, mas ontem tive de levar o carro á inspecção e não deu jeito, podia escrever-te amanhã, mas amanhã vou levar-te ao shopping para vermos as montras e depois de amanha também não dá jeito que tenho de ir aos correios.

- já que estamos acordados, que tal se…

Dizias tu com ar lambareiro, eu ria-me, não me perguntavas se tomei os comprimidos, se desliguei a máquina de lavar a loiça se desentupi o cano, se tirei os cabelos do ralo,

- Eu sou careca! Porra!

- Se alguém ouve ainda pensa que nos está a dar alguma coisinha má e chama os bombeiros, já viste a vergonha?

Antes dava-te era uma coisinha boa da forma como te mexias

- agora com a ciática nem penses, ainda no outro dia

no outro dia tivemos os anos da tua irmã, que me olha de lado pelas merdas das queixas que tu lhe fazes minhas, eu não olho de lado para ela por ela andar a fazer merda por aí e o Nando ter de lhe cascar. Sim não olho de lado para o meu cunhado por ele não fazer nada da vida e passar todo o dia no sofá com contrabando na garagem a espreitar as vizinhas e meter a mão nelas,

- só converso com a da tabacaria sobre o tempo!

Por beber em casa e partir tudo, eu bebo ás tuas escondidas depois de jantar, com o cigarro que fumo quando vou por o lixo, não olho de lado a tua irmã por  ser  vesga. Sim, eu sei que não gostas que fale assim da tua família, mas a verdade é que nunca sei para quem ela está a falar e isso confunde-me, mas o teu pai já me pode chamar banana, o teu cunhado de manso, a tua mãe de imprestável e

- já que estamos acordados, que tal se…

podia escrever-te amanhã, mas acho que é hoje que fazemos aniversário de casados, por isso

Parabéns e continuo a… tu sabes

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Encontros,



Primeiro sorrisos galantes, cumprimentos solenes, já aos primeiros copos trocam-se palavras alegres e ruidosas aos quintos copos já se trocam abraços e beijos, partilhas de amizade.

- Pronto, já estão na fase dos abraços!

Encontramos caras já distantes e amigos, sim amigos, daqueles que não esquecemos, que não vemos à meses mas que só a sua presença já nos preenche, já nos estimula a acreditar um pouco nos outros e na vida que um dia se teve e na que virá.
Não sabemos parte da sua vida, quase poderíamos dizer que não os acompanhamos, mas sabemos que isso não é verdade, sabemos que somos presentes mesmos ausentes, a ausência física, mas da presença constante, pelas historias vividas como as contadas, juntos traçamos um passado e futuro. Apesar dos meses de distancia parece que estivemos ontem... a amizade é assim, despida.

- Olhem para isto, parecem miúdos!

Sabemos que na mesa ao lado também está família, também estão amigos daqueles que se pode fazer toda a cagada, mas nós perdoamos e eles nos absolvem, que se riem no dia a seguir dos disparates ditos e feitos, isso é pureza, isso é amizade porque se entende, se sente. Coisas que só a eles se diz.

Amigos distantes e próximos em quilómetros que nos abraçam e amparam onde se trocam risos e loucuras mais inusitadas. Sentimos o verdadeiro significado da amizade, algo que sempre me acompanhou, seres que me foram apresentados uma vez e que esse foi um segmento de tempo continuo, perpetuo, tatuado na minha historia.

Aos sétimos copos já desfraldados com mais abraços amamos o mundo e a vida, acreditamos num futuro melhor e que o amor é eterno.
Aos de branco comprido e preto elegante tecem-se elogios, mais abraços e palavras de sorte, divertimo-nos e divertimo-los demonstramos o carinho que merecem.

- Amanhã ninguém os atura!

Aos amigos solidificamos as amarras que nos unem em todas as diferenças e em todas as semelhanças, acreditamos e admiramo-los, queremos encurtar as distancias. Pena uma noite ser tudo tão breve.

- São ainda uns miúdos!

Aos tantos copos já não me lembro… Mas fica cá dentro tudo tão quentinho que desejamos durar para sempre.

Para os amigos…  Foi tão bom encontrar-vos                                                                                                                                                                                                            

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Vou-te contar,


Vou-te contar como abracei a tua mãe quando soube que tu vinhas a caminho, na incerteza como com a estranheza clara de ser filho, passar a ser pai, como na primeira ecografia fiz festas em ti prolongado pelo belo ser que te carrega, foi o momento, 

 - Vou-te contar os meus sonhos de capa espada, ela vai-te contar como nos apaixonamos e o seu sonho de encantar noites de som.

Ainda não sei bem quem és, mas vens aí  na tua pequena capsula, depositamos nomes que mais tarde gostarás ou não, assim vais dar à terra.

Penso que está na altura de deixar o galho e amadurecer, vou-te contar como amo a tua mãe e como juntos te carregamos, vou-te contar uma biblioteca de letras que da estante me observam. Vou-te contar como vejo o amor, reflectido em ti e nela, ela vai-te falar de nós, nós vamos falar de ti.

-Importancia de Duchamp, o humor de Bansky, 

Ainda não sei o teu nome, ainda não te conheço, apenas te deslumbrei ao fundo do escuro, ela  sente-te, afaga-te e acaricia-te, eu, quero protege-la, a vocês.

Percebi que também já não posso ser miúdo, mas ainda posso chamar a tua mãe de 

 - Miúda!

Vamos te dizer que um dia me vais dar razão e como meu pai me disse

 - Bem vindo ao meu clube! Com um afago lindo e paternal, tal como agora lhe dou razão em tanta coisa.

- de Oscar Wilde, de Picasso, Monet ou Toulouse Lautrec

Vou-te contar,  vou amar-te vou amar-vos. 

- de Lucian Freud ou Francis Bacon

Até seguires o caminho que é só teu, eu estarei na janela com a tua mãe a ver-te, e tal como ouvi um dia:

-Se te perderes olha a sombra que tens colada aos pés e procura a tua mais velha metade

 - Vou amar-vos.