segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Despedidas




Tenho pavor. Fujo da tristeza. Arranjo Sempre uma maneira para não me despedir. "Não saberei nunca dizer adeus" como Mia Couto escreveu no Poema da despedida, não tenho jeito.

- Ainda fui à estação mas só vi as costas do comboio! Mas também não te vou dizer isto, pois já me despedi sem dizer adeus, prefiro pensar em ti ainda lá em casa, quando chego e tu do outro lado à minha espera. Prefiro assim, quando vejo que não estás, penso que foste dar um passeio, mas voltas já, prefiro, deixa ser assim…

Sempre que nos despedimos viramos uma página que de longe parece tão bem escrita, não quero ver a casa vazia, que tantos e tantos bons momentos passei lá dentro, prefiro pensar que ainda está habitada com todos os móveis, a cama ainda no sítio e não na casa tal como uma ossada vazia, sem calor, não, não quero ver o sítio onde fui feliz, ninguém é feliz voltando onde o foi uma vez, por isso não acredito em segundas hipóteses, é apenas uma continuação de tudo, mas apenas com um perdão pelo meio. No dia da despedida prefiro passar para o dia seguinte e assim a dor vai passando, já foi ontem, friamente me coloco para não sentir a despedida, prefiro o eterno, prefiro pensar que ainda não fui a casa, que me esqueci das chaves.

- Ainda fui à estação mas só vi…

Não, não vi a tua mala feita, nem dei pelos teus sapatos não estarem espalhados por aí que em tanto esbarrava, não, não dei pela falta dos teus perfumes alinhados, não dei pela falta do teu livro na mesinha de cabeceira, não dei pela falta daquele bocado fresco que me roubavas no lençol, mas que tanto calor me trazia. Nunca reparei em nada disto. Também não decorei a data da tua partida, pois era a data da...
Prefiro pensar que ainda lá estás, vou demorar é a encontrar-te, não sei bem quando.

- as costas do comboio!

Agora a casa continua a sua vida com outros personagens, outras vidas, ouvir outras conversas , bati a porta e ainda disse baixinho

- Até já. Prefiro assim...

1 comentário:

  1. Compreendo bem a(s) dor(es) desta despedida que descreves porque desde cedo comecei a despedir-me de lugares e de pessoas. Ha uns anos comecei a chamar-lhe(s) dor(es) de crescimento porque me parece que as suporto melhor assim. Lembro-me que quando acabei o curso, demorei-me por Coimbra num impasse disfarcado, so porque nao conseguia dizer adeus ao que la tinha vivido. Ainda hoje me despeco de Vila do Conde e de Lisboa com um nó no peito e uma sensacao de que na primeira oportunidade irei tentar voltar... mas nunca acontece! Parece que me esta no sangue esta atraccao pelo amargo da despedida!
    Um beijo, Lara

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