domingo, 24 de fevereiro de 2013

Companheira



Caminho
de mãos dadas co'a tua sombra
na manhã de domingo,
sem me desviar
das braçadas das folhas.

Só tu me olhas,
só eu distingo
a imagem que de ti compus
em mil desenhos, em mil versos
tacteando universos
de trevas e de luz.

<< Companheira>>, Essência, Saúl Dias, 1973

Para ti, minha companheira, 
que sempre em mim viajas

Feliz Aniversário

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

O sinal fechado


O sinal fechado, tal como eu que fechei o meu coração, um dia.
Na mala do carro estão as minhas coisas, coisas de uma vida breve que tirei lá de casa, ainda por estrear, coisas, nada de especial.

Comecei a imaginar o nosso casamento, eu vestida de noiva e tu ao fundo, a envelhecer a ganhar barriga, perder cabelo.

- Será que ainda vou a tempo de cancelar tudo? 

À medida que me imaginava a avançar pela igreja via as flores que carregava entre as mãos a murcharem, um apartamento cheio de recordações do Gerês, Nazaré, porcelanas e eu a limpar isso tudo com um esfregão, não com um esfregão, com uma borracha para apagar de vez com o que poderia ter sido o meu futuro, o nosso calor sem chama. 

O vestido de noiva que ainda carrego quando o descolar do corpo vai tornar tudo mais leve. 

- Não cancelo! Nesta altura já ele sabe que não apareci, por esta altura já está com a cabeça em retalhos, tal como o meu coração que nunca consegui juntar para amar alguém. Afinal, por quem me apaixonei um dia, nunca mais voltou para mim, apenas com um bilhete se despediu.

- Volto já!

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Crónica de um Crime




- Sr. Agente vir aqui ao escritório, buscar-me, por uma coisa que nem sei como foi!

Eu a tomar o pequeno almoço na cozinha e o raio da velha estava a estender a roupa, ainda ouvi um chinelo a cair, mas não tive tempo para ver o que aconteceu, 

- Sabe é que tenho de entregar um relatório e hoje em dia não se brinca com o emprego, não me deu jeito acudir!

Depois eu a tirar o carro da garagem ainda vi um vulto no chão, mas estava a chover e de certeza que algum vizinho ia dar por isso, portanto, para quê chegar atrasado.
Talvez às 19h eu resolva esse assunto, ou então a Lurdes que vai sempre lá casa dê por isso.

- Não fui eu que a atirei! Pense Sr. Agente, ia fugir logo para o escritório?!

Eu sei que discutimos muitas vezes e ela é minha senhoria, cobra-me o couro por tudo que se passa lá em casa, mas atirar uma velha pela janela, mesmo quando o raio dos gatos dela fazem do meu tapete casa de banho, mandados por ela claro, sim, cheguei a tentar esganá-la no elevador, mas estávamos sozinhos não havia testemunhas. Ela para me chatear passou toda a noite com a televisão nas alturas e eu tenho um relatório para entregar, nunca tratou da banheira a pingar o meu teto, o meu carro aparece sempre com ovos esparramados, toca sempre à minha campainha e diz que se engana
- Pensava que era o botão da luz, é a idade!
E ainda a ouvia murmurar com um sorriso por entre a dentadura 
- Imprestável, tarado, filho desta e daquela!

- Porque tenho o chinelo da velha na minha pasta?! Não sei Sr. Agente é que por vezes passam-me uns nervos e não sei onde ponho as coisas! Chego inclusive a procurar durante dias!
- Agora se me dá licença tenho um relatório para acabar!

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Sussurravas graçolas



É verdade, sim, pensas que as garrafas que tinhas escondidas atrás do sofá que as tinhas acabado sem te aperceberes, pois bem, bebeste-as nos assados que fiz quando os meus pais vinham cá. Sim, pensavas que eu não sabia que te perfumavas todo para ires ter com alguma galdéria.

- Vou para a jogatina em casa do Raúl!

Raul, dizias tu com toda a lata, endireitando os colarinhos e a saíres com a camisa que eu passei a ferro, para ficares bem perante alguma, pois todo amarrotado já eu te conheço e a tua jogatina sei bem qual foi e quem perdeu foste tu, perdeste a fechadura da casa que agora é outra. Agora o Raúl coitado, sempre tão bem educado, lá está para beber e jogar.

- Vou à pesca com o Raúl!

Ou os telefonemas que recebias a horas estranhas e que sussurravas graçolas.
Agora vou eu beber ainda o fundo das garrafas boas que escondi para ocasiões especiais. Logo vem cá a Mitó e vamos beber as duas, talvez até lhe dê uma chave da nova fechadura, nunca se sabe quando vou precisar de auxílio, pois dizem que não se deve ficar só quando se está doente e as minhas tensões não estão lá grande coisa.  

Talvez até diga ao Raúl que é viúvo e anda sempre todo bem vestido, para vir até cá beber também do fundo das tuas garrafas e usar tudo que deixaste à espera, afinal apesar de já não ser novo até tem mais cabelo que tu e que se saiba não recebe nenhuma mulher, só se é pela calada, até se chegou a dizer que ele era... 

A não ser que te receba a ti, realmente... e que te tenhas andado a perfumar para ele... e as graçolas eram para ele e a jogatina realmente era outra sim, mas ... e a pescaria também... 

- O teu marido é muito amigo do Raul, não é?

Pronto, vou antes telefonar só à Mitó e ficamos cá as duas. Afinal o Raúl nunca me enganou.