No café a tentar não olhar para os ponteiros do relógio. O chá numa mutação de estado de ebulição para frio, mas não o queria beber até ao fim, sabia que depois disso deixava de ter uma desculpa para estar ali.
Talvez daqui a nada alguém me toque no ombro e diz que hoje ele não vem.
Eu com tanto aprumo antes de sair de casa, agora a pensar qual a roupa que vestirei amanhã, pois hoje ele não deve aparecer. Ele no escritório a sorrir para mim, a ajudar-me com as fotocópias tão simpático. Já o imaginei tantas vezes com os nossos futuros filhos, deve ser atencioso, por de trás dos óculos envergonhados. Depois daquele toque ao mesmo tempo, não foi bem ao mesmo tempo, primeiro carreguei eu no botão do primeiro andar e depois ele com o dedo esticado passou ao de leve nas minhas unhas, aposto que ainda ficou pintalgado de vermelho, e a descermos os dois
- Depois de um dia de trabalho sabe bem espairecer!
Daí a
- Vamos fugir!
Foram meia dúzia de encontros. Ora, não se diz isso a uma mulher agora solteira e depois não se aparece, que vestido vou trazer amanhã, logo hoje que me dava jeito lavar lãs.
Não quero acabar este chá, pois é sinal que tenho de voltar para casa para a vida de sempre, íamos fugir os dois, tu dizias que nada te prende em casa, fantasiamos, sim, deve ser a palavra certa, pois hoje não deves aparecer, tantos sítios para fugir, eu com aquelas meias a mostrar a coxa que tanto gabas, ser jovens novamente, dançar, esquecer que estamos a envelhecer.
Não se faz, não aparecer, a uma mulher agora solteira, pelo menos até às 20h que é quando o meu marido volta para casa, não se faz obrigar-me a desfazer a mala, se ainda apanhar o 37 talvez ainda consiga chegar a casa antes da hora e até ponho a máquina a lavar as lãs.



