quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

À espera de Godot




No café a tentar não olhar para os ponteiros do relógio. O chá numa mutação de estado de ebulição para frio, mas não o queria beber até ao fim, sabia que depois disso deixava de ter uma desculpa para estar ali.

Talvez daqui a nada alguém me toque no ombro e diz que hoje ele não vem.
Eu com tanto aprumo antes de sair de casa, agora a pensar qual a roupa que vestirei amanhã, pois hoje ele não deve aparecer. Ele no escritório a sorrir para mim, a ajudar-me com as fotocópias tão simpático. Já o imaginei tantas vezes com os nossos futuros filhos, deve ser atencioso, por de trás dos óculos envergonhados. Depois daquele toque ao mesmo tempo, não foi bem ao mesmo tempo, primeiro carreguei eu no botão do primeiro andar e depois ele com o dedo esticado passou ao de leve nas minhas unhas, aposto que ainda ficou pintalgado de vermelho, e a descermos os dois

- Depois de um dia de trabalho sabe bem espairecer!

Daí a 

- Vamos fugir!

Foram meia dúzia de encontros. Ora, não se diz isso a uma mulher agora solteira e depois não se aparece, que vestido vou trazer amanhã, logo hoje que me dava jeito lavar lãs.

Não quero acabar este chá, pois é sinal que tenho de voltar para casa para a vida de sempre, íamos fugir os dois, tu dizias que nada te prende em casa, fantasiamos, sim, deve ser a palavra certa, pois hoje não deves aparecer, tantos sítios para fugir, eu com aquelas meias a mostrar a coxa que tanto gabas, ser jovens novamente, dançar, esquecer que estamos a envelhecer.

Não se faz, não aparecer, a uma mulher agora solteira, pelo menos até às 20h que é quando o meu marido volta para casa, não se faz obrigar-me a desfazer a mala, se ainda apanhar o 37 talvez ainda consiga chegar a casa antes da hora e até ponho a máquina a lavar as lãs.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Os homens estão cada vez mais estranhos




Não estou a falar dos cremes e das depilações, nem tão pouco de não irem à tropa, nem dos ginásios e corridas, nem de os ver a passear no shopping de loja em loja. Não é isso, se bem que antigamente no shopping era vê-los sim à porta das lojas, onde até se travavam amizades momentâneas a apreciar as outras que passavam ou mesmo as empregadas da loja onde a mulher estava a comprar meias.

Agora bebem umas cervejas e rapidinho com uma pastilha de menta para a mulher não dizer que são alcoólicos.

Na minha altura ia-se para o café do Manel beber uns tragos e só se ia para casa quando fosse para a janta, forrar a barriga para aguentar mais uns!

Eu, com esta idade, vejo o meu filho a entrar nestas modas, rapar os pelos, calças de cores estranhas  justas e sem gostar da bola.

Hoje são elas a ir ao estádio! São eles que estendem a roupa! Qualquer dia até a lavam!

Ele a dizer que agora o homem é que põe a mesa, lava a loiça, cozinha e ainda pia fininho. No meu tempo, as mulheres eram cozinheiras, agora eles são chefs. 

Estão estranhos estes tempos onde o homem já não canta de galo, os filhos é que mandam em casa e até a mulher cacareja. 

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Pancadas de Molière


Lembro-me do corre corre das noites de estreia, hoje passados tantos e tantos anos e mais tantas personagens, ao espelho já me confundo com elas. Não sei quem me olha se é a mãe, a operária ou a mulher da vida.

- Todas elas me olham por detrás do espelho.

No início fiz papéis de filha, depois de amante sedutora, mãe e avó matriarca, círculo de vida que a maquilhagem não consegue apagar. Já vesti plumas, apresentei-me quase despida provocando escândalo, colhi risos e choros.

Hoje, o palco cheira a pó do soalho que range, as cadeiras vazias e eu com o risco dos olhos a desbotar por tudo se estar a perder, o filho que me esperava nos bastidores, que cresceu a ver a mãe sempre diferente todas as noites.

- Também ele se confundiu.

- Quem está aí, por detrás deste espelho? É Benilde, Ofélia ou a senhora Carrar de Brecht. A viúva rica ou a miúda pobre, a minha cara já se confunde com a delas que no tempo naufragam.

- Ora aparece uma, ora aparece outra. 

Mas nada apaga a felicidade das luzes sobre mim, do pano a correr para enfrentar a plateia escura ao encontro dos aplausos no final. Vivi tantas e tantas vidas, que são a minha em cenários à medida.

- Vivi todas elas com aplausos e todas elas me visitam ao espelho.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Style it Takes



Não sei se o que me atraiu foi o teu cabelo cor de fogo, a tua pele branca onde me imagino a contar os sinais,

- Não te conheço a voz

ou de te imaginar nas folhas perdidas da Vogue. Talvez seja o teu nariz arqueado que te traz um toque reminiscente da Belle Epoque. 

- Imagino os aromas que inspiras, gostava que fossem os da minha pele.

Ou então por toda tu seres uma tela de Warhol, onde a excentricidade tem lugar, talvez seja do baton a bater com a carteira ou o verniz com o colar.

- Vamos tirar uma fotografia já aqui, com uma música dos Velvet Underground a entrar pelo ouvido.

Cabelo cor de fogo, não vermelho. Uma mulher fêmea que se desenrola em belas formas  nos seus 15 minutos de fama, onde te procuro. Em cada imagem tua realizo o meu filme com poses onde o estilo é a personagem principal. Por vezes, posso não gostar do visual, mas existe sempre algo que seduz, um olhar, uma pose ou um gesto solto e não precisas de falar.

Um sinal, dois, por aí fora até me perder e começar de novo pela estrada branca da tua pele e encontrar-me no sinal que tens entre o peito.

Não a entrar pelo ouvido, a passear por ele, tal como te admirei numa tela de Warhol

Senta-te aí, vamos tirar uma fotografia … demoradamente

- Afinal gostas de atenção, eu gosto de te olhar.