quinta-feira, 9 de julho de 2015

Vai, mas deixa a luz acesa…



Ela vem… vai… mesmo a carne sendo a mesma. Vai mas deixa saudade, vai, mas está cravada no peito, vai mas não sai do sítio.
Quando vem instala-se em casa, tira os sapatos, calça os chinelos, estira-se no sofá, não sem antes causar as mais nobres e violentas sensações aos corpos agitados, colados em frenesim de mãos suadas de coxas quentes.
Quando vai, deixa a luz acesa num “volto já”, a luz não mirra porque existem as linhas já escritas, outras rasuradas, o peito continua a bater, a porta continua aberta…
A chave continua lá, porque quando vem queremos aprisiona-la dentro do corpo, não deixar sair, vem com tanta força que derruba o casco do barco, torna as ondas revoltas, come a areia, galga as margens do rio…
Que corre, que prossegue o seu caminho, que cura, que mata, que tropeça mas que se levanta, que colhe o vento, que abre as velas que incendeia o mastro, que cala, mas que também canta…

Vai, mas vem e quando vem, deixa tirar os sapatos e instalar-se à vontade, correr o seu caminho, afinal, quando vem é para nos levar com ele…

Como gosto de ir contigo.

quinta-feira, 23 de abril de 2015

Pequena Alegoria da vida





Pela manhã…

Pela janela, existe um mundo
que percorro na ponta dos teus dedos
em cada palavra um sabor surdo
onde me perco e não me procuro 

Pela tarde…

Hoje acordei mais velho
com dolorosas cicatrizes
e olhos pisados de chão 
sem forças para arrancar as raízes 
das cores negras do meu coração

Noite…

Visto-me de branco
mergulho em marfim
Abro a asas, fecho os olhos
e grito bem alto de peito enxuto:
- Sim é por mim que luto!
Que pela janela, existe um mundo

que escrevo nos teus lábios dentro de mim

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Epitáfio ao Sr. Valentino





Hoje, com raiva fechas a porta
e ao longe ouço teus passos sem cor. 
Com palavras frias do meu coração com boca morta,
quisera eu amar-te, sem dor.

Ontem, em ti encontrava um gemido quente 
hoje, um rugido amargo sem amor 
quando esperava a tua mão no meu corpo afundar lentamente
e os teus lábios no meu corpo, com fervor

Ontem as tuas unhas minhas costas rasgavam de forma ofegante
mesmo com as palavras frias do meu coração de cavaleiro errante
não afastaram o teu belo corpo onde por uma noite fui Rei
sim, foi entre lençóis que te amei!

Hoje, com raiva os corvos me esperam à porta
tentei desenhar uma canção, saiu um hino
sobre os nossos dias e noites de ardor
feito com palavras frias do meu coração com boca morta
que atiro para o chão manchado de vinho
onde quisera eu amar-te sem dor.


Poeta Bêbedo

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Passos em fuga







Bom dia,

Como sabes a nossa filha acordou, pois bem ouvi sorrateiramente os teus passos em fuga quando ela entrou na casa de banho tal qual zombie, comandada pela mãe para me arruinar a manhã!

Não foi fácil, secar o meu corpo molhado com ela ao colo, mandada pela mãe, já o tinha dito?! Deitar-me novamente com ela na esperança que se tivesse esquecido do teu comando e me fosse permitido fazer a barba com espuma a ouvir as notícias ou música ligeira que passa no rádio. Não, como sabes não foi assim, foi fazer a barba já vestido e a seco sem espuma com ela ao colo, ainda consegui a proeza de atirar desodorizante por entre a camisa e braços com vapor a sair pelo colarinho.
Algum alívio me foi permitido, com muito jogo de cintura, quando lhe dei o leite, o que me custou alguns minutos no emprego. 

Arranjar a filha, o pai, sair, no carro, a percorrer mil caminhos com obras, uma cidade com uma feira insuportável, sempre com boa disposição para disfarçar que não tinha percebido o vosso plano malévolo e ela sempre a ouvir a música do puto que perdeu a bola por causa de um rafeiro, mas eu sempre firme com boa disposição...até que ela chega a casa dos avós e parece que a boa disposição lhe caiu em cima e a angústia de estar com os pais à noite foi um fardo que passou! Certamente está a contar ao avô J. o vosso plano cheia de sorrisos...


Ai, ai ser pai e marido não é fácil... 

Beijo 

do Marido