quarta-feira, 20 de março de 2013

Para a Mãe e Filha...






Ela dá-me beijos

E papas de leite

Faz-me um chapeuzinho

Com as nuvens do céu



Põe na minha boca

A cara de seda

E canta comigo

Para eu não chorar



Não chores, não chores,

Com os olhos em mim
Toma mel, menininha,
E a tua boneca

Peço a deus arco-íris

No céu para ti

E solinho para sempre



Ela abraça-se a mim

Em noites sem sono

Ela tem de chorar

Com as dores de crescer



Que sonhos terá

Nas primeiras noite

Quando me chamar

Pelo nome dela?



Eu vou dar-te beijos e papas de leite

Muitos mimos e doces para comprares por ti

Hás-de rir pela rua

Mais alto que eu

A crescer sozinho



Ela dá-me beijos

E papas de leite

E boas razões

Para me ter nascido



E a nossa cara

Com lustro de seda

Até se fanar

Até se fanar.

Letra: Jorge Palma

segunda-feira, 4 de março de 2013

Um Táxi para tua casa





Estávamos os dois naquela hora entre a noite alta e a madrugada, a sentir a respiração quente dos lábios aquecidos pelo desejo, à porta do restaurante onde ao de leve toquei na sua perna, ela na minha mão em intimidade crescente.

Era outro, talvez tenha dado a imagem de um homem que sempre sonhei ser, ela estava agradada, agradava-me, sentia o sangue quente a correr pelas veias ajudado pelo vinho que me libertava um pouco, senti a leveza do meu corpo, com ela estava flutuante sem o peso que todo o homem carrega das pressões e angústias do trabalho, a tristeza madura do enxofre.

Minutos antes, 
sussurrávamos desejo, o restaurante vazio, tudo já arrumado para o dia seguinte, o homem que nos atendia pousava a cara na mão, o cotovelo na mesa, antecipando o sono, para nós a conversa não tinha termo, os temas não se esgotavam, eu cavaleiro, ela uma Valquíria de Odin para me levar deste mundo.

Horas antes, 
eu em casa, em frente ao espelho, a colocar o melhor rosto, o melhor guarda roupa, imaginar as minhas sortes. Há noites em que é bom ser o outro, não se sabe onde principia nem acaba. 

Neste momento,
- Bom, vou andando? Disse ela
- Tenho pena de terminar assim a noite! Disse com desejo lancinante.
Por alguns segundos ela desapareceu sem sair dali, talvez a pensar nas consequências da resposta,
- Apanhamos um táxi para minha casa…

Uma hora depois, 
Sentia o cheiro dos seus cabelos, sentia nas minhas mãos o calor do seu corpo, os seus olhos humedecidos de prazer, a respiração ofegante a penetrar o meu ouvido, e eu, um cavaleiro andante onde os moinhos de vento eram as minhas próprias angústias.

- E se eu pudesse ser sempre este?

Na manhã seguinte, 
ela na janela a se despedir, sorrindo, talvez ela por uma noite também tenha sido a outra, por uma noite…