terça-feira, 7 de março de 2017

Deixei-me algures

Perdi-me de mim, não sei onde me deixei, qual prateleira, qual arrumo. Gostava de correr de dentro para fora. Perdi-me, de olhos abertos, deixei-me, deixei-me algures.
Não reconheço quem me olha no reflexo, a pele casca seca, as mãos, os olhos  embriagados de algo que não o vinho, de memórias que não as minhas, não são os mesmos, de quando descia a correr as escadas e abria as asas para brincar ao ritmo do sol, no compasso da chuva.
Já tenho cheiro a ranço, não a jovem, não a novo. A ranço, mal vestido, de uma pele que não sei quando a vesti, onde deixei a outra? A que era nova?
Ficou nos mundos que não vivi.
O general que batalhava contra as forças inquietas, o actor que encarnou as mais heróicas personagens, o músico errante que encantava, o artista de pincel em riste.
Que diriam esses olhos de mim? Que não me conhecem, perguntavam-me, onde te perdeste?

Agora sou do tempo de meu pai e não, não sei onde me deixei.

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Tudo corrói, tudo arde






Que fome é essa?
que tudo corrói, tudo arde,
que fome é essa?

Que morde a carne crua,
definha a cor dos teus olhos
e seduz a saudade

Que fome é essa
que te rasga,
que me asfixia,
que fome é essa 
que vive sempre nua,
que lambe a carne vazia
que fecha o punho
e me abre o peito.

Que se consome pela luz
ludribia a vida
dorme no meu leito
que  vive na rua 
e morre no mundo.

Que fome é essa?